SXSW 2025: Hackeando o maior festival de inovação e tecnologia do mundo

17 de março de 2025 31 minutos
sxsw 2025

 

MARKETING&BRANDING
INOVAÇÃO
TENDÊNCIAS
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
CREATOR ECONOMY
SOCIEDADE

Todos os anos, o South by Southwest (SXSW) nos leva a uma viagem pelo futuro, antecipando tendências tecnológicas e discutindo os rumos da inovação. Mas, em 2025, o tom das conversas mudou. A grande estrela do evento não foi uma nova inteligência artificial ou um dispositivo revolucionário, mas sim a própria inteligência humana. Mais do que nunca, o SXSW trouxe reflexões sobre como avançar tecnologicamente sem perder nossa essência. Como garantir que a tecnologia amplifique a humanidade, em vez de substituí-la? Como equilibrar inovação e autenticidade? Essas foram algumas das perguntas que permearam os debates e inspiraram os participantes ao longo do evento. Entre painéis, palestras e experiências imersivas, o SXSW 2025 reafirmou sua posição como um dos maiores festivais de inovação e criatividade do mundo, provocando discussões que vão muito além da tecnologia. O impacto na sociedade, nas relações humanas e no nosso futuro esteve no centro das atenções.

Acompanhe esse Hacks e fique por dentro das principais discussões do SXSW 2025.

MARKETING & BRANDING

O novo search: Descoberta impulsionada por comunidades

Se antes o Google era a resposta para tudo, hoje a descoberta e as recomendações acontecem onde as pessoas realmente estão: dentro das comunidades digitais que elas confiam. O que a internet fala sobre uma marca importa mais do que qualquer narrativa construída por ela mesma. O debate trouxe à tona a necessidade de adaptação das marcas a um cenário onde plataformas como TikTok, Instagram e YouTube se tornaram centrais na jornada de descoberta. Em vez de procurar respostas em páginas estáticas, os consumidores querem ouvir de pessoas, engajar com elas e se conectar com quem compartilha suas dores, desejos e interesses. Isso significa que as marcas não controlam mais sua própria narrativa.

Para permanecer relevante nesse cenário, não basta ser encontrada – é preciso ser falada e lembrada positivamente. Marcas que entendem a dinâmica social entram nas conversas, influenciam narrativas e constroem presença de forma orgânica, dentro dos espaços que realmente importam. O novo search, impulsionado por IA, já prioriza percepções e sentimentos gerados dentro das redes sociais para indexar marcas e destacar resultados. Ou seja, o que acontece dentro das redes sociais não só influencia a demanda, mas define a visibilidade da marca no digital como um todo. As empresas que insistirem em falar sozinhas tendem a perder a relevância com a velocidade que o mundo digital está se inovando. As que ouvirem, participarem e cocriarem com suas comunidades não só serão descobertas – mas lembradas, compartilhadas e recomendadas. 

De storytelling para story-living    

 Para o SXWS 2025, as tendências de brand experience estão em constante evolução. Se antes as marcas focavam em contar histórias (storytelling), agora a tendência é fazer com que o público as viva (story-living). No painel “The Future of Brand Experience Design: How Brands Will Be Lived, Felt and Shared”,  especialistas destacaram cinco tendências que devem moldar o mercado, impulsionadas pela tecnologia, personalização e busca por conexões mais profundas. 

🔹 Experiências episódicas criam conexões mais longas:  Eventos pontuais estão dando lugar a ativações contínuas, criando jornadas em série que aprofundam o vínculo com o público. Além da recorrência, a estimulação dos sentidos e o envolvimento emocional tornam essas experiências mais marcantes e aumentam a lealdade à marca.
🔹 Emoções positivas aumentam o impacto:  Gatilhos emocionais como alegria, surpresa e nostalgia tornam as ativações inesquecíveis. Experiências marcantes são mais facilmente lembradas e compartilhadas.
🔹 O digital e o físico estão cada vez mais integrados: O conceito phygital vem se consolidando, permitindo que o público transite entre o presencial e o virtual de forma fluida. Tecnologias como IA, realidade aumentada e ambientes imersivos ampliam as interações e prolongam a experiência além do evento físico.
🔹 Personalização extrema leva a experiências únicas: Com IA e análise de dados, as marcas estão criando interações adaptadas ao perfil de cada pessoa. Do entretenimento ao live marketing, essa personalização transforma ativações em experiências verdadeiramente únicas e altamente envolventes.
🔹 Sustentabilidade será um diferencial competitivo: O público espera marcas com compromisso genuíno com práticas sustentáveis. Ativações regenerativas vão além da neutralização de impacto e buscam gerar benefícios reais para o meio ambiente e a sociedade.

O futuro do brand experience será definido por conexões mais profundas, inovação tecnológica e impacto positivo. Marcas que incorporarem essas tendências estarão à frente da transformação. 

 Autenticidade e conexão como pontos-chave para o marketing em 2025 

Marcas poderosas estão cada vez mais focadas em se conectar com a audiência de maneira autêntica. Elizabeth Harlow, Chief Brand Officer do Sonesta Hotels, destacou que anúncios devem ser leves, divertidos e curiosos, permitindo que influenciadores e atores se divirtam durante o processo, buscando a autenticidade. A comunicação precisa ser fluida, não forçada. Apesar do receio de errar, é fundamental apostar em novas ideias, pois isso gera mais dados e aprendizados sobre o que realmente funciona.

Russel Wager, CMO da Kia Motors, inspirou ao contar como a ideia de um comercial radical, onde um carro atravessa um telhado para destacar suas propriedades, gerou 1 bilhão de visualizações em uma semana, mostrando que correr riscos pode elevar a marca. Harlow complementou essa visão ao afirmar que os profissionais de marketing devem sair da zona de conforto, citando a acomodação das grandes marcas com as campanhas do Super Bowl, que deixam de se reinventar em termos de mídia. Russel finalizou dizendo que o melhor KPI para medir a autenticidade é quando a audiência reconhece claramente a marca e seus produtos, evidenciando que ela se destacou em um mundo hiperconectado, onde as pessoas estão cada vez mais dispersas.

A nova mídia de 2025 e a plataforma do ano. Um combo poderoso. 

sxsw 2025 podcast

 

Scott Galloway, um dos maiores nomes da análise de mídia e tecnologia não hesitou em declarar: podcast será a mídia dominante em 2025. Com o aumento do consumo e a evolução das estratégias de distribuição, os podcasts estão entrando em uma nova era. Um em cada dois adultos já ouviu podcast nos últimos 30 dias, e o crescimento do formato supera todas as outras mídias suportadas por anúncios. Existem cerca de 3,2 milhões de podcasts, com 600 mil publicando conteúdo semanalmente.

Esse crescimento também está sendo impulsionado pelo YouTube, que se tornou uma plataforma chave para podcasters. Segundo Stephanie Chan, do YouTube, a plataforma registra atualmente 1 bilhão de espectadores mensais de conteúdo de podcast, com 84% dos ouvintes da Geração Z descobrindo novos programas através da plataforma. Vivian Tu, criadora do podcast “Net Worth and Chill”, compartilhou que as pessoas que não se consideram ouvintes de podcast estão dispostas a assistir entre 30 e 60 minutos de conteúdo. Tu destacou também como o vídeo amplia as possibilidades de parcerias com marcas, já que com áudio, você pode inserir anúncios, mas com vídeo, as pessoas notam o que você está vestindo, bebendo ou usando, criando oportunidades adicionais de patrocínio. Isso explica por que talentos estão migrando das mídias tradicionais para podcasts. À medida que o podcast continua evoluindo, está claro que as linhas entre áudio e vídeo, conteúdo e publicidade, estão se tornando cada vez mais tênues.

O marketing do absurdo

Em um mercado saturado de informações, as marcas precisam encontrar formas genuínas de se conectar com o público, e o absurdo pode ser uma ferramenta poderosa para isso. No painel “The Power of Absurdity”, especialistas discutiram como a autenticidade, a criatividade radical e o inesperado estão transformando a forma como marcas constroem significado. Paulo Baba, Head of Strategy da Sherpa42, resumiu essa mudança de paradigma: “A novidade já não é mais suficiente. O que faz as marcas se destacarem é sua autenticidade e valor único”. As marcas precisam criar momentos que realmente envolvam o público. O inesperado, muitas vezes, é a melhor forma de fazer isso, já que o marketing tradicional já não é suficiente para capturar a atenção.

A importância da experimentação na criatividade também foi discutida. Muitas empresas enfrentam dificuldades para inovar, pois operam em estruturas rígidas que dificultam a tomada de riscos. A conversa enfatizou a necessidade de criar espaços onde ideias ousadas possam ser testadas sem medo do fracasso. A inovação acontece quando há liberdade para experimentar. O futuro do branding não está em vender produtos, mas em criar significado. Marcas que apostam no inesperado, na autenticidade e no absurdo em suas estratégias de marketing não apenas geram impacto imediato, mas também constroem comunidades engajadas.

O lado sombrio das redes sociais e a responsabilidade das marcas com a GenZ

A palestra no SXSW, “Gen Z, Social Media’s Dark Side, and Brands”, conduzida pela diretora Lauren Greenfield, abordou o impacto das redes sociais na geração Z. Ela destacou que essa geração foi a primeira a crescer totalmente imersa no digital, e vive uma realidade online constante. Greenfield revelou dados alarmantes coletados durante sua série Social Studies, onde acompanhou a gen z para entender como as redes sociais influenciam suas vidas. Os principais pontos discutidos foram:
🔹Educação sexual distorcida: A pornografia tem se tornado a principal fonte de educação sexual, gerando uma percepção distorcida sobre relacionamentos.
🔹Estética inatingível: A pressão por padrões estéticos irreais nas redes sociais tem causado uma crise de identidade, com um aumento de transtornos alimentares e baixa autoestima.
🔹Saúde mental e solidão: A solidão se intensificou com o uso excessivo de redes sociais reforçando um ciclo de comparação e frustração, aumentando casos de depressão, ansiedade e suicídio.

No painel, a mediadora Margaret Johnson levantou a responsabilidade das marcas, questionando como elas podem ajudar nesse cenário, Elas podem escolher influenciadores que promovam valores positivos e ajudar a criar um ambiente digital mais seguro e consciente.

INOVAÇÃO

10 tecnologias atuais mais inovadoras e que prometem impactar o mundo este ano 

Durante o SXSW 2025 o MIT divulgou no SXSW 2025 sua lista anual das tecnologias mais inovadoras do ano. O Observatório Vera C. Rubin, com a maior câmera digital para astronomia, iniciará uma pesquisa no céu do hemisfério sul, capturando imagens continuamente ao longo dos anos, permitindo que astrônomos investiguem a matéria escura, explorem a Via Láctea e desvendem mistérios do universo. Na inteligência artificial, a pesquisa generativa pode substituir buscas tradicionais e pequenos modelos de linguagem tornam-se mais acessíveis e energicamente eficientes. No setor ambiental, suplementos para reduzir arrotos de gado e o uso de aço verde e combustível sustentável, produzido a partir de óleo de cozinha usado e resíduos industriais, prometem mitigar impactos climáticos. No transporte, robôs-táxi estão expandindo sua atuação globalmente. Robôs de aprendizagem rápida ganham versatilidade, enquanto novas terapias com células-tronco começam a tratar doenças como epilepsia e diabetes tipo 1. Avanços médicos incluem um medicamento de ação prolongada para prevenção do HIV com 100% de eficácia em testes.

Computação Quântica: A revolução em curso

A computação quântica se consolidou como um dos temas centrais do SXSW, com potencial para transformar setores como ciência, logística e marketing, especialmente com sua convergência com a inteligência artificial. Charina Chou, COO do Google Quantum AI, destacou o potencial da computação quântica para resolver problemas que supercomputadores e IA tradicionais não conseguem, como desafios na química e otimização logística.

Avanços, como o chip Willow do Google, estão reduzindo erros, com expectativas de aplicações práticas nos próximos cinco anos, principalmente em simulações moleculares e descoberta de novos materiais. Arvind Krishna, CEO da IBM, acredita que a tecnologia sairá do campo teórico nos próximos anos, com impactos reais, como na criação de novos fertilizantes, otimização de preços e desenvolvimento de tecnologias de sequestro de carbono. No entanto, ele afirma que a revolução só ganhará tração quando surgir um caso de uso concreto de grande impacto, como aconteceu com a IA generativa. Ambos afirmaram que a estabilidade dos qubits –  unidade básica de informação na computação quântica, semelhante ao bit binário na computação clássica – ainda é um desafio significativo, e a tecnologia exige cooperação global para evoluir. Além disso, a interseção com a IA promete acelerar descobertas e otimizar processos.

A computação quântica, inicialmente voltada para saúde e energia, também impactará o marketing e a organização de eventos. Chou destacou três áreas principais:

🔹Personalização em tempo real: Com sua capacidade de processar múltiplos cenários simultaneamente, a computação quântica permitirá uma personalização de campanhas e anúncios sem depender de extensos históricos de dados.
🔹Otimização de eventos: A tecnologia poderá prever gargalos, otimizar fluxos de participantes e melhorar a alocação de recursos de forma dinâmica.
🔹Experiências imersivas: A convergência entre computação quântica, IA e realidades virtuais abrirá novas possibilidades para ativações de marca e ambientes digitais hiper-realistas.

A computação quântica está avançando rapidamente. Empresas que investirem agora terão uma vantagem competitiva significativa.

TENDÊNCIAS

A era “The Beyond” e a Inteligência viva

A futurista Amy Webb fez uma análise impactante sobre a convergência de tecnologias emergentes no SXSW, alertando que a humanidade entrou no que ela chama de “The Beyond” — uma nova era em que inteligência artificial, biotecnologia e sensores avançados estão se combinando para criar possibilidades e desafios inéditos.

Entre os destaques de sua apresentação, Webb chamou atenção para o conceito de Living Intelligence: sistemas capazes de sentir, aprender, se adaptar e evoluir, redefinindo as regras da realidade e exigindo uma nova abordagem para sua regulação e uso. Além disso, ela apresentou descobertas de seu relatório anual de tendências tecnológicas, que mostram avanços com potencial de transformar radicalmente a sociedade:

🔹IA autônoma: Inteligências artificiais estão desenvolvendo a capacidade de colaborar, tomar decisões e agir sem intervenção humana.
🔹Linguagem das Máquinas: Sistemas de IA estão adotando formas de comunicação mais eficientes do que as línguas humanas, como o “Droid Speak” da Microsoft, tornando a interação entre máquinas até três vezes mais rápida.
🔹Integração de sensores e IA: Desde dispositivos microscópicos injetáveis no corpo até eletrodos implantáveis que permitem que pessoas paralisadas controlem computadores com o pensamento.
🔹Fusão entre biologia e tecnologia: O surgimento dos primeiros computadores comerciais feitos com neurônios humanos vivos está criando as primeiras “máquinas vivas”.
🔹Materiais do futuro: Pesquisadores estão desenvolvendo “metamateriais” com propriedades inovadoras, como tijolos que filtram poluição e prédios que se tornam flexíveis para resistir a terremotos.
🔹Avanços em robótica e IA geral (AGI): A inteligência artificial pode depender de um corpo físico (robôs) para alcançar um nível superior de cognição, e grandes empresas já aceleram o lançamento de robôs comerciais para os próximos anos.
🔹Superciclo tecnológico: A convergência dessas tecnologias pode impulsionar um período de grande crescimento econômico, seguido por um inevitável ajuste ou reestruturação no futuro.
🔹Revolução na biotecnologia: Com avanços na biologia generativa, previsões biológicas podem ser feitas em minutos, impactando setores como o farmacêutico. Já existem experimentos como o crescimento de dentes humanos em porcos e a criação de arroz com genes bovinos.

As mudanças estão acontecendo em um ritmo exponencial, e a falta de um planejamento estratégico pode resultar em impactos descontrolados, tanto no mercado de trabalho quanto na governança global. Webb também alerta que a humanidade precisa abandonar uma mentalidade reativa e desenvolver uma abordagem proativa e ética para essas inovações, “o maior erro das empresas é reagir às tendências em vez de antecipá-las”.  Para Webb, o futuro não será linear e exige uma visão estratégica contínua para navegar na nova realidade.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

De UX para AX – Sua marca já é promptable?  

No SXSW 2025, John Maeda, vice-presidente de design e IA da Microsoft, trouxe um conceito que redefine o futuro do design: a transição da Experiência do Usuário (UX) para a Experiência Agente (AX – Agentic Experience). Em um mundo orientado por IA, a interação entre humanos e interfaces dá lugar a agentes autônomos que respondem diretamente às solicitações dos usuários. Se antes a identidade de uma marca era construída por meio de design visual e navegação, agora ela precisa ser reconhecível nas respostas geradas por IA. Isso exige que as marcas sejam “promptable”, capazes de responder de forma coerente e relevante dentro dos sistemas de IA. A AX se sustenta em quatro pilares:

🔹Model (Modelo) – A tecnologia que processa e gera respostas.
🔹Prompt (Comando) – A forma como a marca se expressa dentro desse ecossistema.
🔹
Knowledge (Conhecimento) – A base de informações que garante consistência nas respostas.
🔹
Tools (Ferramentas) – Recursos que permitem que a IA tome ações concretas.

Sem presença nesses elementos, uma marca simplesmente não existirá na interação mediada por IA. A relevância algorítmica se torna mais importante do que estética ou usabilidade, determinando quem terá protagonismo na nova era digital. Apesar do avanço da IA, Maeda reforça que essa tecnologia não substituirá designers, mas transformará sua forma de trabalhar. Ferramentas baseadas em IA estão removendo barreiras e tornando o design mais acessível e dinâmico. Além disso, Maeda levantou reflexões sobre os desafios éticos da IA, como o impacto dos deepfakes e o papel da tecnologia na tomada de decisões humanas. Em sua visão, a IA deve ser uma aliada, eliminando tarefas burocráticas e permitindo que profissionais foquem no que realmente importa: a criatividade e a inovação.

 E se a tecnologia pudesse sentir?

No SXSW 2025, o painel “Emotional Machines: AI, Feeling & The Human Body” mostrou que, embora máquinas não sintam emoções como nós, elas já conseguem interpretá-las e responder a elas. Essa evolução promete redefinir nossa interação com a tecnologia  e abrir novas possibilidades com o uso de agentes de IA para setores que dependem da confiança e da tomada de decisão. Esses agentes podem aprender com as emoções, comportamentos e necessidades dos clientes, oferecendo soluções mais precisas e humanizadas.

A ciência já comprova que nossas decisões são amplamente influenciadas por emoções. Batimentos cardíacos, variações na condutividade da pele e padrões cerebrais refletem nossos sentimentos. Empresas já utilizam EEGs (eletroencefalogramas) e biossensores para captar esses sinais e criar experiências personalizadas. Outro exemplo da aplicação dessa abordagem é o design emocional, que também emerge como um diferencial competitivo. Foi apresentado o conceito de “Autodesigners”: sistemas de IA que adaptam interfaces e interações de acordo com o estado emocional do usuário. Em um setor que lida diretamente com decisões baseadas em emoções, como ansiedade e confiança, agentes de IA podem ajudar na construção de jornadas mais humanizadas. Imagine um agente de IA que, ao perceber seu estado emocional, sugere o produto que melhor se alinha às suas necessidades, oferecendo uma alternativa mais econômica ou com características que atendem às suas preferências específicas, criando uma experiência de compra mais conectada e satisfatória. O desafio não é criar máquinas que pensam como humanos, mas sim criar máquinas que nos ajudem a sermos mais humanos. Estamos prontos para um mercado onde a tecnologia compreende e responde às nossas emoções?

O Fim dos LLMs? Novas abordagens para IA mais eficientes e sustentáveis 

A inteligência artificial dominou mais uma vez os palcos do SXSW. Mas, se no ano passado a discussão girava em torno da revolução provocada pelo ChatGPT e seus grandes modelos de linguagem (LLMs), este ano especialistas começam a questionar até onde esses modelos podem nos levar. Os LLMs exigem grandes quantidades de energia e água para operar, tornando-se cada vez mais caros e insustentáveis. Além disso, são sistemas estáticos, que não aprendem de forma contínua. Para cada nova atualização, é preciso treiná-los de novo – um processo caro e ineficiente. Os números refletem essa preocupação. Nos Estados Unidos, estima-se que o consumo de eletricidade por centros de dados triplique até 2028. E mais, a refrigeração dos servidores exige grandes volumes de água, com algumas estimativas indicando que, até 2027, a IA pode consumir 6,6 bilhões de metros cúbicos de água. Apenas uma sessão média no ChatGPT (de 10 a 50 respostas) pode gastar até meio litro.

A saída é procurar por fórmulas que impactam menos o meio ambiente. Entre as alternativas discutidas, uma das mais destacadas foi a inferência ativa, uma abordagem inspirada na neurociência que permite que a IA aprenda de forma contínua, interagindo com o ambiente como um ser humano. Esse modelo permite que a IA aprenda com poucos dados e se ajuste dinamicamente, eliminando a necessidade de retreinamento. Outra alternativa mencionada foi a IA neuro-simbólica, que combina aprendizado de máquina com raciocínio lógico. Essa abordagem, diferente dos LLMs, permite que a IA compreenda conceitos e justifique suas decisões, o que seria um grande avanço para setores como saúde, finanças e direito, onde não basta apenas reconhecer padrões, mas entender contextos e fornecer explicações. Também foi discutido o movimento em direção a modelos menores e mais eficientes. O DeepSeek, exemplifica essa tendência ao realizar tarefas avançadas com muito menos recursos do que os LLMs tradicionais. Essa abordagem promete tornar a IA mais acessível, sustentável e com menos impacto ambiental. Para muitos especialistas, isso marca o fim da era dos LLMs e o início de uma transição para sistemas mais eficientes, especializados e sustentáveis.

IAs podem entender o consumidor melhor do que ele mesmo?

No SXSW 2025, um experimento gerou um debate: seria possível que uma IA entendesse um consumidor tão bem quanto ele mesmo? A sessão “The Insights Showdown: Humans vs AI” trouxe à tona essa questão ao colocar frente a frente um consumidor real e sua versão sintética, criada a partir de dados comportamentais para emular suas preferências, personalidade e tomadas de decisão. O desafio era simples: ambos responderiam às mesmas perguntas de pesquisa para ver quem traria os insights mais valiosos. De um lado, a imprevisibilidade humana, com respostas emocionais e subjetivas; do outro, uma IA projetada para reconhecer padrões e simular o pensamento do consumidor, reagindo com base no seu histórico e contexto. Os insights gerados pela persona sintética foram não apenas rápidos, mas também surpreendentemente alinhados com as respostas humanas, muitas vezes antecipando percepções que o próprio consumidor só expressaria mais tarde. Isso não significa que a IA pode substituir consumidores reais nas pesquisas, mas que o processo de pesquisa pode ser radicalmente ampliado. No experimento, a IA foi capaz de sintetizar padrões e revelar conexões que levariam semanas para serem percebidas manualmente.

Essa tecnologia de pesquisa sintética já está sendo aplicada no mercado. Recentemente, um estudo com 250 consumidores que normalmente levaria semanas, foi concluído em poucos dias, graças à IA. O que mudou foi a velocidade na descoberta de padrões, permitindo ajustes nas hipóteses antes mesmo da primeira entrevista e tornando os testes de mercado mais amplos e acessíveis. Agora, as empresas podem chegar ao consumidor sabendo exatamente quais perguntas fazer. O impacto da pesquisa sintética vai além de uma mera melhoria na eficiência. Ela está criando uma nova mentalidade. Antes, as marcas precisavam esperar para entender seus consumidores; agora, podem antecipar comportamentos e testar diferentes cenários antes mesmo de agir. Contrariando o medo de que a IA substitua pesquisadores, o efeito real é o oposto: ela torna os humanos mais essenciais do que nunca. A IA pode processar dados e identificar padrões, mas são os humanos que garantem que as perguntas certas sejam feitas, evitam vieses nos modelos e transformam dados em decisões. Se já conseguimos prever tendências com a ajuda da IA, imagine o que acontecerá quando começarmos a antecipar desejos dos consumidores antes mesmo de eles perceberem. 

CREATOR ECONOMY

O Futuro da Creator Economy: IA, autenticidade e a nova era da intenção

A economia dos criadores de conteúdo vem passando por uma transformação acelerada. O que antes era um território experimental, hoje é um componente essencial das estratégias de mídia e marketing. Com a crescente evolução da inteligência artificial, a maturidade do marketing de influência e as incertezas políticas que afetam as plataformas, a creator economy se encontra em uma encruzilhada. Para as marcas, entender essas mudanças é crucial para aproveitar ao máximo as oportunidades que surgem nesse ecossistema. Jim Louderback, na sessão “The Past, Present and Weird Future of the Creator Economy”, destacou um dos debates mais relevantes do momento: a tensão entre a IA e a criatividade humana. O grande diferencial da creator economy sempre foi a autenticidade dos criadores, que produzem conteúdo para suas audiências de maneira genuína. No entanto, com a IA otimizando processos, reduzindo custos e emulando a realidade, surge um questionamento fundamental: como saber se estamos consumindo conteúdo feito por um humano ou por uma máquina? A resposta pode estar na vulnerabilidade, a chave para manter a autenticidade é abraçar o erro humano. São as falhas, as microexpressões e os detalhes sutis que nos tornam identificáveis e empáticos. Para as marcas, isso é um alerta: o público valoriza o real e o humano, e é isso que conecta os criadores com suas audiências de maneira verdadeira. O uso excessivo da IA pode prejudicar essa conexão.

Apesar disso, a IA tem se tornado uma aliada no processo criativo, com influenciadores e marcas utilizando ferramentas de brainstorming e algoritmos de personalização de conteúdo. Outro ponto relevante é a transição da economia da atenção para a economia da intenção. Enquanto a primeira foca em cliques rápidos, a segunda prioriza interações significativas e conexões autênticas. Criadores que investem na intenção constroem comunidades leais, enquanto aqueles que se concentram na viralização correm o risco de se perder na digitalização. Para as marcas, isso significa que as campanhas devem ser mais que atrativas; devem construir relações duradouras com conteúdo relevante e autêntico.

No painel “Beyond the Buzz: Mastering Creator Economy Trends in 2025”, especialistas como Jasmine Enberg, VP do eMarketer, e Kaya Yurieff, especializada em Creator Economy e indústria criativa no The Information, destacaram que o marketing de influência agora representa 60% da receita dos criadores, consolidando-se como um modelo de negócios profissionalizado. Criadores estão deixando de ser apenas influenciadores para se tornarem empreendedores, explorando novas formas de monetização e expandindo para canais como TV conectada e podcasts. Para as marcas, isso oferece novas oportunidades de parcerias além das plataformas tradicionais. No entanto, o crescimento também traz desafios, como a necessidade de diversificar as estratégias de marketing. A incerteza sobre o futuro do TikTok, por exemplo, tem levado criadores e marcas a se afastarem da dependência de uma única plataforma, investindo em múltiplos canais e criando uma presença mais robusta e menos vulnerável a mudanças inesperadas. Em resumo, o futuro da creator economy depende do equilíbrio entre tecnologia, autenticidade e estratégia. Marcas que souberem construir comunidades sólidas, diversificar parcerias e usar a IA de maneira inteligente terão mais chances de prosperar. No final das contas, o fator humano será sempre o diferencial mais valioso.

SOCIEDADE

Saúde Social: O novo pilar do bem-estar 

Um dos temas mais impactantes do SXSW 2025 foi a discussão sobre a epidemia da solidão e os efeitos da hiperconectividade na saúde mental e social. Vivemos em um mundo onde estamos mais conectados do que nunca digitalmente, mas cada vez mais isolados no nível humano. A palestra de abertura do SXSW foi com a especialista em saúde social e fundadora do Social Health Labs, Kasley Killam, que trouxe uma reflexão essencial sobre o impacto das conexões humanas na nossa saúde e bem-estar. Kasley argumentou que a saúde social, a qualidade das nossas conexões é tão essencial quanto a saúde física e mental. A ciência confirma essa importância. Killam apresentou estudos mostrando que pessoas com mais interações sociais se recuperam mais rápido de doenças e que quem tem menos laços sociais tem o dobro de risco de mortalidade. Não importa o quão saudável alguém seja, sem conexões, o risco de mortalidade dispara. O problema é global, com 20% das pessoas relatando que não têm ninguém em quem confiar.

A tecnologia também entra na equação. Killam questiona se os aplicativos e redes sociais realmente fortalecem conexões ou apenas nos mantém ocupados. Ela destacou como cada vez mais pessoas vivem isoladas, escondidas atrás de telas ou em reuniões, evitando relacionamentos reais e até buscando refúgio emocional em agentes de inteligência artificial – uma realidade chocante em que indivíduos já chegam a “namorar” a IA.  Para ela, o futuro das ferramentas digitais precisa priorizar interações autênticas.

A solução passa também pela educação. Se as crianças aprendessem a fazer amigos e resolver conflitos da mesma forma que aprendem educação física, as conexões saudáveis se tornariam um hábito natural ao longo da vida. No trabalho, equipes que cultivam boas relações são mais produtivas e inovadoras. Empresas que promovem conexões genuínas entre funcionários têm maior retenção de talentos e melhor desempenho. Com o mercado global de saúde mental projetado para alcançar US$ 530 bilhões até 2030, a inovação na saúde social será a próxima grande revolução. Para Killam, essa não pode ser uma questão secundária. O maior investimento que alguém pode fazer é reservar tempo para se conectar de verdade.

Skill Flux – O futuro é daqueles que aprendem rápido

Ian Beacraft, CEO da Signal & Cipher, afirmou que o trabalho, como conhecemos, está em declínio e que não entender isso é um erro. Ele vê a IA como um novo paradigma, uma revolução que se desenrola muito mais rápido que a revolução industrial. Beacraft introduziu o conceito de Skill Flux, que descreve a rápida obsolescência das habilidades, com conhecimentos técnicos que antes duravam 30 anos agora se tornando obsoletos em apenas dois. Para ele, o futuro do trabalho não será dos especialistas hiperfocados, mas sim de quem aprende rapidamente, desaprende ainda mais rápido e aplica conhecimento de forma criativa em contextos inéditos. O futurista Mike Bechtel trouxe uma perspectiva adicional, afirmando que a verdadeira inovação não vem da hiperespecialização, mas da Cross-Pollination, ou seja, da habilidade de conectar diferentes áreas do conhecimento. 

Como a ‘perfeição algorítmica’ está transformando nossos relacionamentos

No SXSW 2025, a psicoterapeuta Esther Perel trouxe à tona um debate instigante: a influência da tecnologia na construção de relacionamentos significativos e seu impacto na longevidade e na qualidade de vida. Em um painel ao lado da futurista Amy Webb e de Frederik G. Pferdt, ex-chief innovation evangelist do Google, Perel ressaltou que não basta viver mais, é preciso viver bem. O avanço da inteligência artificial e da automação vem remodelando a forma como as pessoas se conectam, tanto no ambiente profissional quanto na vida pessoal. A busca por eficiência extrema está reduzindo as interações humanas ao mínimo necessário, tornando os relacionamentos mais superficiais e menos empáticos. Para as empresas, encontrar um equilíbrio entre tecnologia e conexões genuínas será essencial para criar ambientes de trabalho saudáveis e produtivos. Perel enfatiza que a qualidade dos relacionamentos determina a qualidade da vida. O desafio imposto pela tecnologia é que, ao remover atritos e oferecer experiências cada vez mais previsíveis e otimizadas, ela pode acabar nos tornando menos preparados para lidar com frustrações, conflitos e desafios naturais das interações humanas. A crescente dependência de algoritmos cria um cenário onde as pessoas esperam que tudo funcione perfeitamente e sem obstáculos. Quando algo sai do esperado, muitos se sentem desorientados, sem saber como enfrentar confrontos ou desacordos. O debate levantou um alerta importante: em um mundo cada vez mais automatizado, preservar a autenticidade das relações humanas pode ser um dos maiores desafios – e também a chave para uma vida mais plena.

4 tendências que vão redefinir o futuro da longevidade

Vivemos mais, e isso está transformando a forma como consumimos, trabalhamos e nos relacionamos. Durante o SXSW, Renata Gomide, CMO do Grupo Boticário, e Carla Buzasi, CEO da WGSN, discutiram quatro tendências sobre longevidade.

🔹Espectro etário e intergeracionalidade
O conceito tradicional de idade está se dissolvendo. Hoje, dentro de uma mesma geração, encontramos comportamentos muito diferentes, já que todos estão convivendo mais próximos, e isso impacta como vivemos e consumimos. Para as marcas, a ideia é focar nas necessidades e no estilo de vida, não na idade.
🔹Mudanças climáticas e longevidade
O aquecimento global também está afetando a longevidade. Para se adaptar, marcas, principalmente no setor de beleza, precisam modificar produtos e serviços, como desenvolver fórmulas que protegem e refrescam.
🔹Design inclusivo e acessível
Com a longevidade, aumenta a demanda por produtos acessíveis. O design deve refletir a diversidade e as necessidades de diferentes faixas etárias e perfis.
🔹“Lifestage beauty”
A personalização de produtos e o bem-estar estão cada vez mais conectados. A menopausa, antes um tema tabu, agora se tornou uma grande oportunidade de inovação, mas muitas marcas ainda não atendem a essa demanda.
🔹Novas narrativas para a longevidade
A longevidade vai além de viver mais, é sobre viver melhor, com saúde, disposição e qualidade de vida. As mulheres querem se ver representadas em todas as idades. 74% do público gostaria de ver mais mulheres maduras nas campanhas publicitárias.                                                                          

Ignorar essas mudanças é perder uma oportunidade valiosa de inovação e fortalecimento da marca.

CONCLUSÃO

O SXSW 2025 destacou a importância da inteligência humana e das relações em um mundo cada vez mais tecnológico, questionando também como equilibrar inovação e autenticidade. As discussões enfatizaram a importância de conexões genuínas e experiências significativas nas estratégias de marketing, onde a capacidade de gerar impacto emocional e criar significado é fundamental para o sucesso. Para as marcas, o desafio agora é se adaptar às mudanças constantes do mercado, integrando-se às novas dinâmicas sociais e tecnológicas para permanecer relevantes e conectadas com seus públicos.

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