Hackeando a…. APAS Show 2026: As tensões que estão reorganizando o varejo alimentar

26 de maio de 2026 28 minutos
apas show 2026

CONTEXTO
NOVO CONSUMIDOR
REORGANIZAÇÃO DAS GÔNDOLAS
CONSUMO, CULTURA, EXPERIÊNCIA
NOVA OPERAÇÃO

A APAS Show 2026, maior evento de alimentos e bebidas das Américas, funcionou como um espelho imediato das transformações estruturais que reconfiguram a nova dinâmica do varejo alimentar no Brasil.

A 40ª edição da feira materializou a tensão entre duas forças em rápida evolução. De um lado, o supermercadista, enfrentando uma realidade operacional cada vez mais complexa, onde a busca por eficiência deixou de ser uma meta de excelência para se tornar uma condição básica de sobrevivência do negócio. Do outro, um novo perfil de consumidor: cada vez mais exigente, racional e fragmentado, cujas prioridades de escolha foram reescritas por pressões econômicas, viradas demográficas e novas rotinas de saúde.

O que se viu nas discussões foi o retrato de uma cadeia inteira sendo obrigada a recalibrar suas estratégias de portfólio, tecnologia e relacionamento em tempo real.

Confira neste Hacks tudo o que foi discutido!

1. Contexto: O cenário macroeconômico que pautou o varejo alimentar

Para entender as estratégias e inovações apresentadas na APAS Show 2026, é preciso olhar primeiro para o contexto econômico do país. Grande parte das mudanças discutidas na feira surgiu como resposta direta à pressão sobre o orçamento das famílias e à necessidade de ganho de eficiência por parte do varejo.

Esse cenário foi impulsionado por três movimentos principais:

  • Pressão sobre as margens operacionais:
    Com uma inflação projetada entre 4,5% e 4,6%, o varejo alimentar enfrenta um ambiente de custos mais complexo. A transição da Reforma Tributária aumentou a dificuldade de gestão sobre milhares de itens e regras fiscais, enquanto a alta do petróleo pressionou o preço do frete e das embalagens. Nesse contexto, eficiência operacional virou prioridade para preservar rentabilidade.
  • O consumidor mais racional:
    O consumidor passou a pesquisar mais preços, comparar alternativas e flexibilizar a fidelidade às marcas. Dados da pesquisa “Tendências do Varejo 2026”, realizada pela Shopper Experience em parceria com a Scanntech, mostram que 78% dos consumidores pesquisam preços antes de comprar, enquanto 71% trocam marcas tradicionais por opções mais acessíveis diante de aumentos.
  • A mudança na dinâmica de compra:
    A lógica do abastecimento mensal perdeu espaço para compras menores e mais frequentes, voltadas à reposição do dia a dia. As compras express cresceram 9% e já representam mais da metade das compras do setor. Para os supermercados, esse movimento exige operações mais ágeis para evitar ruptura de produtos e manter o abastecimento das lojas.

2. Comportamento do novo consumidor: longevidade, saudabilidade e novas prioridades de consumo

Na APAS Show 2026, ficou claro que o comprador brasileiro não está apenas ajustando hábitos pontuais de compra, mas reconfigurando sua relação cotidiana com alimentação, saúde, bem-estar e qualidade de vida. 

2.1 Priorização de bem-estar integrado à rotina

O conceito de vida saudável deixou de ocupar um espaço restrito ao universo fitness para se tornar parte cada vez mais integrada ao cotidiano. Os estudos apresentados ao longo do evento reforçaram como bem-estar, prevenção e qualidade de vida começam a influenciar de forma mais ampla as decisões de consumo.

Um levantamento da Scanntech com a Shopper Experience traduziu isso em números: 72% dos entrevistados praticam exercícios regularmente e 64% mudaram hábitos e estão comprando produtos mais saudáveis.

Para Fátima Merlin, CEO da Connect Shopper, esses dados não são isolados, mas o reflexo de uma mudança estrutural. A especialista destacou que a alimentação ganhou um caráter preventivo, o que explica o crescimento de categorias ligadas à saudabilidade e praticidade nutritiva.

2.2 A longevidade acelera mudanças no varejo alimentar

O envelhecimento da população brasileira apareceu como uma força relevante para o futuro do varejo alimentar. A chamada “economia prateada” ganhou espaço nas conversas não apenas pelo avanço demográfico das pessoas acima dos 60 anos, mas principalmente pelo impacto crescente desse público sobre segmentos ligados à prevenção e ao bem-estar. 

A faixa 60+ cresceu 21,5% na última década, e esse público já representa 68% do faturamento da categoria de produtos naturais. 

A longevidade está diretamente conectada à busca por um envelhecimento ativo, autonomia e manutenção da qualidade de vida. De acordo com Felipe Queiroz, economista-chefe da APAS, esse cenário faz com que as transformações do varejo acompanhem passo a passo as mudanças da sociedade, gerando reflexos práticos que alteram desde o tamanho dos corredores e o conforto térmico até a própria experiência de compra física das lojas. 

2.3 O carrinho fica mais funcional e nutricionalmente estratégico

apas show 2026As mudanças no perfil de quem compra também começaram a impactar diretamente a composição do carrinho. Existe uma procura mais orientada em categorias ligadas à proteína, suplementação e redução de açúcar.

Segundo estudos apresentados no festival, 53% dos consumidores reduziram o consumo de açúcar e doces no último ano. Em paralelo, o volume de compras do produto refinado recuou 21,2%, enquanto biscoitos caíram 19,3% e chocolates registraram retração de 15,7%. O movimento “zero açúcar” consolidou-se a ponto de já representar um terço (33%) de todo o faturamento da categoria de refrigerantes.

Categorias ligadas à alimentação funcional ganharam espaço acelerado. A ingestão de proteínas cresceu entre metade das pessoas, impulsionando categorias como creatina (+117%) e iogurtes proteicos (+84%). Ovos (+16% em volume) e frutas (+8%) também avançaram nas vendas, tendência diretamente atrelada às novas gerações que buscam produtos de menor teor calórico, sem gordura e sem glúten.

2.4 GLP-1 acelera discussões sobre saciedade e reformulação de categorias

Um dos temas que mais chamou atenção na APAS Show 2026 foi o impacto dos medicamentos da classe GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras. O que antes era restrito a consultórios médicos e farmácias entrou no radar de supermercados e indústrias de alimentos por alterar o comportamento de consumo.

O principal efeito desses medicamentos está relacionado à indução de uma saciedade precoce e prolongada. As estatísticas apresentadas revelaram que, entre as pessoas que utilizam esses medicamentos, 61% relataram redução significativa do apetite geral. Além disso, 49% migraram para escolhas alimentares mais saudáveis, 47% aumentaram especificamente o consumo de proteínas e 35% reduziram o interesse por alimentos gordurosos e doces.

Embora a penetração desses medicamentos atinja cerca de 6% da população brasileira no momento, as discussões da feira mostraram que os GLP-1 funcionam mais como aceleradores de uma transformação já em curso, impulsionada pela busca por bem-estar, alimentação funcional e maior controle sobre hábitos de consumo. O avanço rápido dessa tendência forçou o mercado a pensar em como criar produtos com opções de porções menores, de maior valor agregado, fáceis de digerir e com alta concentração de nutrientes e proteínas. 

3. Reorganização de portfólios para um consumidor mais exigente

Ficou evidente um movimento de reformulação de portfólio orientado por demandas simultâneas: saudabilidade, praticidade, funcionalidade, conveniência e experiência coexistem dentro da mesma lógica.

Grande parte da mudança refletiu em uma tentativa da indústria de adaptar categorias tradicionais a um consumidor mais racional, atento à composição dos alimentos e menos disposto a separar alimentação saudável, prazer e rotina. A gôndola se reorganiza para provar seu valor diante de um cliente que pesquisa mais, exige transparência e busca o máximo de benefício real em cada porção colocada no carrinho.

3.1 A alimentação funcional ganha espaço nas categorias do dia a dia

A principal transformação visível nas prateleiras da APAS Show 2026 foi a migração da alimentação funcional e hiperproteica para categorias cotidianas do supermercado. O que antes permanecia concentrado no universo da suplementação esportiva ganhou os corredores tradicionais de lácteos, snacks, bebidas e produtos de conveniência, mostrando como proteína, funcionalidade nutricional e redução de açúcar se espalharam por praticamente toda a indústria alimentícia.

Categorias historicamente associadas à indulgência apareceram reformuladas. Sobremesas ganharam versões com elevado teor proteico, redução de açúcar e restrição de lactose, enquanto linhas lácteas incorporaram fórmulas enriquecidas com colágeno, proteínas hidrolisadas e compostos voltados à absorção mais rápida pelo organismo. Até produtos tradicionalmente ligados ao consumo infantil reduziram o açúcar para responder à pressão crescente dos pais por formulações equilibradas.

Nos snacks e produtos de conveniência, queijos desidratados e alimentos voltados ao consumo rápido destacaram listas de ingredientes mais curtas, ausência de aditivos artificiais e maior concentração de nutrientes.

Esse movimento redesenhou também a categoria de bebidas, que começou a responder diretamente a um público focado em equilíbrio e moderação, sem abrir mão dos momentos de lazer. O avanço das cervejas zero álcool, opções low carb e com redução calórica apareceu de forma consistente nos estandes, deixando de figurar como alternativas restritivas para se tornarem ferramentas de convivência perfeitamente integradas às metas diárias de bem-estar.

3.2 Conveniência passa a ser pensada para a rotina real

Se durante muitos anos a praticidade esteve associada a alimentos ultraprocessados e de baixo valor nutricional, a APAS Show 2026 mostrou um mercado orientado por soluções que reduzam o esforço de preparo sem abrir mão de qualidade, frescor e saudabilidade.

O reflexo mais visível dessa transformação foi o avanço de produtos desenvolvidos especificamente para air fryer. Uma análise de comportamento apontou que, além de demandar maior aporte proteico, o consumidor exige formatos que facilitem a rotina de preparo e se adaptem a novos eletrodomésticos, como as fritadeiras elétricas. Grandes indústrias alimentícias apresentaram linhas de proteínas, empanados, snacks e congelados pensadas para sair diretamente do freezer para o equipamento, reduzindo tempo de preparo, uso de óleo e etapas de limpeza.

Com 36% dos brasileiros levando a própria refeição para o ambiente de trabalho,a lógica da conveniência também impactou refeições prontas e marmitas congeladas. As formulações passaram a explorar ingredientes mais próximos da culinária caseira, menos conservantes artificiais e apelos ligados à praticidade nutricional. 

O crescimento das compras menores e mais frequentes pressiona o varejo por produtos portáteis, de preparo rápido e compatíveis com diferentes momentos de consumo ao longo do dia.

3.3 Categorias tradicionais buscam mais valor agregado

Diante de um mercado competitivo, rentabilidade comprimida e um consumidor cada vez mais racional, categorias tradicionais do varejo alimentar enfrentam o desafio de crescer sem depender exclusivamente de volume. Parte das estratégias apresentadas esteve concentrada em ampliar a diferenciação dentro de nichos já consolidados.

Esse movimento apareceu tanto na premiumização de produtos quanto na diversificação de ocasiões de consumo. Cafés, queijos, chocolates, bebidas e categorias historicamente commoditizadas exploram atributos ligados à origem, experiência, indulgência equilibrada, processos artesanais e sofisticação acessível como forma de se destacar nas gôndolas.

No mercado de cafés, por exemplo, o avanço de grãos gourmets de origens regionais específicas, versões rastreáveis e processos voltados à preservação de aroma e sabor mostrou uma categoria tentando se reposicionar para além do consumo massificado. O mesmo ocorreu em segmentos como queijos especiais e embutidos curados, com marcas investindo em maturação prolongada, ingredientes premium e referências gastronômicas mais sofisticadas.

Para um consumidor atento ao custo-benefício e menos fiel às marcas, a diferenciação depende da capacidade de gerar experiência, identidade e adequação às novas rotinas.

4. Marcas apostam em conexão cultural e ocasiões de consumo

Se os primeiros movimentos observados na APAS Show 2026 estavam ligados à funcionalidade, conveniência e reorganização do consumo, os painéis também revelaram uma indústria preocupada em preservar o componente emocional da alimentação. Construir relevância passou a depender não apenas de preço ou saudabilidade, mas também da capacidade de gerar conexão cultural, pertencimento e experiência.

Datas sazonais, socialização, memória afetiva e consumo compartilhado apareceram de forma recorrente, reforçando como emoção, ocasião e contexto continuam exercendo um papel decisivo nas compras.

4.1 Copa do Mundo impulsiona ativações e consumo coletivo 

apas show 2026O principal vetor das discussões de marketing foi a proximidade da Copa do Mundo de 2026. O torneio mundial foi debatido não como um evento esportivo isolado, mas como uma plataforma de consumo compartilhado dentro do lar. As empresas reformularam suas estratégias de comunicação e a disposição de seus portfólios para capturar o comportamento do consumidor que vai reunir amigos e familiares em casa para assistir aos jogos, priorizando a indulgência prática e a conveniência.

Embalagens temáticas, campanhas promocionais e estratégias ligadas a consumo em grupo apareceram de forma recorrente nos estandes, reforçando como grandes eventos esportivos continuam funcionando como importantes plataformas de conexão cultural dentro do setor.

Os debates também mostraram uma leitura minuciosa do comportamento de consumo durante as partidas. Segundo os dados compartilhados nos painéis, o primeiro tempo concentra metade do volume consumido durante os jogos, impulsionado pelo mercado de petiscos rápidos e produtos de preparo prático. Esse tipo de comportamento forçou a indústria a redirecionar seus esforços para produtos de alto giro e facilidade de preparo.

4.2 Regionalização e memória afetiva seguem relevantes para construção de marca

As conversas sobre construção de marca reforçaram que identidade cultural e regionalização continuam sendo algumas das ferramentas mais poderosas para combater a troca de marcas motivada por preço. Em um contexto de consumo mais racional, memória afetiva, hábitos regionais e referências culturais locais exercem um papel importante na construção de proximidade com o cliente.

O grande exemplo citado de conexão emocional profunda foi a exploração das festividades sazonais, com destaque para o São João. O varejo e a indústria demonstraram como a adaptação de embalagens, o lançamento de sabores típicos e a escolha de embaixadores culturais que dialogam diretamente com a realidade local transformam uma data sazonal em uma presença contínua e lucrativa. O respeito ao hábito regional e à nostalgia cultural gera uma identificação imediata no ponto de venda que campanhas genéricas dificilmente conseguem replicar, provando que a proximidade cultural é indispensável para sustentar o valor percebido das marcas.

4.3 A influência dos creators e o “food noise” digital na jornada de compra

A intersecção entre o branding emocional e o comportamento digital mostrou que a loja física perdeu o monopólio da descoberta de produtos. A jornada de compra atual é impactada pelo fenômeno conhecido como “Food Noise”: o excesso de estímulos, recomendações e tendências alimentares circulando constantemente nas redes sociais. O consumidor agora chega ao ponto de venda influenciado por um fluxo contínuo de conteúdos digitais, curadorias, prescritores, nutricionistas e comunidades online que moldam preferências antes mesmo da entrada no estabelecimento.

Para capturar esse cliente conectado, a indústria e o varejo integraram criadores de conteúdo de forma mais deliberada à jornada de descoberta. Abraham Briseño, Brand Partnerships Manager do TikTok, apontou que os creators assumiram papel central na descoberta orgânica de produtos e tendências de consumo, aproximando marcas e consumidores por meio de autenticidade e identificação cultural.

Nesse cenário, a loja física assume a função de um ambiente de validação e confiança, onde a exposição e a curadoria das categorias materializam a experiência iniciada previamente na tela do celular. Essa abordagem representa uma oportunidade de fortalecer posicionamento, ampliar alcance digital e criar campanhas com maior potencial de engajamento.

4.4 Conexão humana e experiência emocional ganham peso na fidelização

apas show 2026Em um ambiente automatizado, competitivo e pressionado por custos, a APAS Show 2026 mostrou um varejo supermercadista tentando reconstruir vínculos humanos com os compradores. A fidelização deixou de girar apenas em torno de descontos e programas de pontos para incorporar temas como acolhimento, experiência emocional, escuta e relacionamento contínuo.

Clilson Filippetti, fundador da CL Consultoria Comercial, pontuou que a conexão humana precisa retornar ao centro do atendimento para que as redes construam relações de longo prazo com o comprador. Segundo ele, a tecnologia deve atuar como suporte para a eficiência operacional, mas nunca substituir o contato direto e empático na linha de frente. 

Fernanda Dalben, diretora de Marketing da rede Supermercados Dalben, ressaltou que fatores como ambientação coordenada, percepção olfativa e identidade visual aumentam de forma permanente o tempo de permanência no estabelecimento. Essa abordagem transforma o supermercado tradicional em um ambiente de experiências e memórias afetivas, defendido como diferencial competitivo indispensável para reter e encantar o cliente atual.

4.5 Dados, escuta ativa e personalização redefinem relacionamento com o cliente

A volatilidade das escolhas de consumo e o ecossistema de comparação instantânea de preços transformaram o gerenciamento de dados em uma ferramenta de relacionamento de longo prazo, superando a antiga lógica puramente promocional.

Graziela Schmoller, diretora de Marketing do Grupo TOP, destacou em um painel como programas de relacionamento assumiram papel estratégico na retenção, recompra e construção de vínculo. Segundo a executiva, os supermercados precisam colocar as pessoas no centro das decisões e desenvolver experiências consistentes para fortalecer a recorrência.

Essa captação de valor expandiu-se para a presença digital das redes. O uso direcionado de conteúdo focado em inspiração constrói marcas próximas do cotidiano do cliente.

Já Fabrizzio Topper, CEO e cofundador da DRIVEN.cx, explicou como canais de mensagem, chatbots e ferramentas conversacionais vêm redefinindo a experiência de compra no setor supermercadista. Segundo ele, o cliente espera interações mais rápidas e convenientes, transformando o atendimento digital em ferramenta de engajamento e construção de marca.

Todo esse ecossistema ganha precisão com a prática da escuta ativa. A tabulação de feedbacks, a análise comportamental e a observação da jornada do consumidor passam a orientar decisões operacionais e de layout nas lojas físicas. Ouvir o cliente supera a métrica passiva de satisfação: trata-se de transformar percepções reais em decisões de negócio capazes de aprimorar a operação, solidificar o relacionamento e garantir o crescimento sustentável das empresas. 

As discussões reforçaram um varejo focado em relacionamento contínuo, leitura de comportamento e construção de experiências customizadas, combinando tecnologia, dados e proximidade com o consumidor como elementos indispensáveis para retenção e recorrência de compra.

5. Eficiência operacional, tecnologia e novas estratégias de rentabilidade

Os painéis voltados à operação do varejo deixaram claro que o setor atravessa uma pressão crescente por eficiência, produtividade e sustentabilidade financeira. Em um ambiente de ganhos comprimidos, inflação persistente e comportamento de compra mais fragmentado, a inteligência operacional assumiu um espaço central dentro das decisões.

Temas como retail media, digitalização, automação, inteligência artificial, rastreabilidade e gestão de dados apareceram como ferramentas concretas para reduzir atrito, ampliar rentabilidade e aumentar a capacidade de personalização no relacionamento com o shopper.

5.1 Retail media e a monetização de ativos físicos

A consolidação definitiva do retail media transformou as lojas físicas em ambientes de mídia para a indústria de bens de consumo. O varejo compreendeu que a atenção de uma pessoa enquanto ela circula pelos corredores é um ativo extremamente valioso. Monetizar os espaços físicos tornou-se uma alternativa comercial relevante para abrir novas frentes de receita dentro das lojas. 

Alberto Serrentino, fundador da Varese Retail, explicou que o setor precisa monetizar ativos existentes como lojas, tráfego e base de clientes para gerar receitas incrementais. A palestra debateu como redes de todos os portes estão deixando de ser apenas canais de distribuição para comercializar espaços de mídia dentro das lojas. Isso significa que o topo das gôndolas, os caixas de atendimento e as áreas de grande circulação foram reconfigurados com telas digitais, ativações interativas e circuitos internos.

Um dos avanços mais relevantes foi a integração dessas telas com os dados do programa de fidelidade. Por meio da inteligência artificial, o supermercado exibe anúncios dinâmicos e ofertas personalizadas para o perfil de público que está dentro da loja naquele exato momento da semana, permitindo conversar com o cliente no momento da decisão de compra.

A transformação, porém, exige um desafio de execução: a complexidade de implementar essa estrutura operacional sem gerar atritos na rotina da loja ou atrapalhar a velocidade do abastecimento diário das prateleiras.

5.2 Estratégia data-driven e precificação inteligente

A digitalização das operações e o avanço das ferramentas analíticas vêm alterando a forma como os supermercados tomam decisões. O tema, abordado pela especialista Vera Bermudo, destacou que grandes volumes diários de faturamento e estoque precisam se transformar em capacidade real de reação, pois o principal desafio atual não é apenas coletar informações, mas construir uma cultura analítica capaz de gerar ações efetivas.

O reflexo mais imediato dessa maturidade analítica está no avanço dos sistemas de precificação inteligente orientados por inteligência artificial. Os algoritmos monitoram oscilações de mercado, movimentações da concorrência e padrões de compra em múltiplos canais simultâneos (e-commerce, marketplaces e lojas físicas). Conforme explicou Fernando Menezes, CEO da Eiprice, dados de alta qualidade e monitoramento contínuo funcionam como ferramentas fundamentais de competitividade, permitindo ajustes automáticos e dinâmicos de preços em tempo real através de etiquetas eletrônicas dinâmicas instaladas nas gôndolas. 

A nova geração das etiquetas interativas incorporou tecnologia NFC e recursos integrados às telas digitais do ponto de venda, permitindo que o cliente acione conteúdos complementares e interaja com ações de digital signage (solução tecnológica que utiliza displays digitais para transmitir informações e conteúdo) posicionadas na loja. As análises apresentadas indicam que essa agilidade na precificação baseada em dados pode gerar um incremento de ganho comercial entre 2% e 5%.

5.3 Governança de dados, CRM e segurança jurídica

Como toda essa inteligência analítica e preditiva é abastecida pelo histórico de comportamento do cliente, a governança e a segurança jurídica de dados assumiram papel de destaque na operação. Os debates alertaram que o uso do CRM para personalizar ofertas e anúncios exige um equilíbrio rigoroso entre conveniência, privacidade e confiança do consumidor. Tratar as informações com ética e organização interna deixou de ser apenas uma barreira de conformidade legal para se tornar parte da construção de relacionamento e fidelização.

Esse ecossistema de frente de caixa foi pautado pela Diretora Jurídica do Grupo Muffato, Léia Sena, durante a palestra sobre os desafios de gestão de dados de clientes, onde a executiva ressaltou a necessidade de equilíbrio entre o uso inteligente das informações coletadas, a ética e a proteção jurídica, transformando segurança e governança de dados em fatores determinantes para a reputação e confiança dentro do varejo alimentar.

5.4 Inteligência artificial operacional e a cultura de execução

A inteligência artificial desceu do plano teórico para resolver dores reais de produtividade e velocidade.

Um dos focos principais foi o avanço de assistentes virtuais por voz, desenvolvidos especificamente para o gerente de loja, que passa a consultar o sistema e receber diagnósticos imediatos sobre rupturas, excesso de estoque e perdas operacionais.

A evolução mais profunda desse movimento esteve na transição para os chamados agentes autônomos de retaguarda. São sistemas independentes projetados para executar tarefas complexas, como automatizar pedidos de reposição (cruzando histórico, estoque e sazonalidade) e realizar auditorias fiscais e contábeis preventivas. Nicolás Simone, CEO da Neogrid, destacou que essa nova fase potencializa décadas de dados da cadeia de abastecimento para gerar previsibilidade e ganhos reais de eficiência em escala.

Alinhado a essa necessidade de eficiência prática, Tiago Nascimento, diretor comercial da RP Info, pontuou que o varejo gera um volume muito grande de informações todos os dias, sendo o grande desafio transformar esses dados em algo realmente útil para a operação. De acordo com ele, quando a gestão consegue identificar gargalos com mais rapidez, a loja melhora o abastecimento, reduz filas e ganha agilidade no atendimento, gerando impactos positivos em toda a jornada de compra. 

Na prática, a aplicação de algoritmos em processos de logística e prevenção de perdas atua de forma integrada, ampliando expressivamente a tomada de decisão humana. 

Contudo, a virada técnica esbarra na cultura de execução das corporações. Delegar decisões críticas para algoritmos exige flexibilidade e testes rápidos. Bruna Habka, diretora-executiva do Supermercado Big Box, advertiu que a velocidade de implementação e a disciplina para aceitar o erro como aprendizado são competências indispensáveis

5.5 A modernização do checkout e a infraestrutura de segurança física

A inteligência analítica de retaguarda e de monitoramento operacional ganhou o reforço de novas soluções na frente de caixa e na infraestrutura física de segurança das lojas. O setor apresentou soluções de PDV flexíveis, cujo equipamento funciona tanto no modelo convencional com operador quanto em formato de autoatendimento (self-checkout) no mesmo terminal, permitindo adaptar os caixas conforme o fluxo da loja de forma ágil e dinâmica.

Para o controle financeiro, o destaque foi a introdução de cofres inteligentes automatizados que integram a custódia física das cédulas à inteligência de dados, permitindo o acompanhamento dos depósitos em tempo real via aplicativo e transferindo o risco logístico para empresas especializadas. Complementando essa eficiência, os sistemas de segurança eletrônica e monitoramento por câmeras com inteligência artificial evoluíram de maneira integrada, aplicando prevenção de furtos, alarmes inteligentes e reconhecimento facial para ampliar o controle das lojas.

Soluções práticas com hardware integrado de segurança e monitoramento 24 horas foram apresentadas por Rodrigo Marchini, diretor comercial, e Paula Botelho, gerente de marketing, ambos do Grupo Protege, demonstrando como a gestão unificada de numerário reduz a exposição a riscos e as perdas do supermercadista.

5.6 Rastreabilidade ganha papel estratégico no controle operacional

apas show 2026 qr codeA precisão no controle de estoque e o combate ao desperdício ganharam um peso ainda maior, especialmente dentro das categorias de perecíveis. A perda de produtos por falhas de controle, vencimento e baixa visibilidade passou a ser tratada como um dos principais desafios da cadeia supermercadista.

Parte das discussões esteve concentrada na transição dos códigos de barras tradicionais para sistemas mais avançados de rastreabilidade baseados em identificação bidimensional. O principal destaque foi o avanço do QR Code Padrão GS1 nas embalagens industriais, tecnologia que permite concentrar informações como lote, origem, data de fabricação e validade em um único código acessível tanto por escâneres quanto por dispositivos móveis. João Carlos de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Automação-GS1 Brasil, conduziu demonstrações práticas da tecnologia para ilustrar como a identificação padronizada atende à busca do comprador brasileiro por acesso à informação, origem e autenticidade daquilo que consome. 

Na prática, essa integração permite que supermercados monitorem com mais precisão o ciclo de vida dos produtos dentro das lojas. Produtos próximos do vencimento podem gerar alertas automáticos para promoções dinâmicas, reposicionamento nas gôndolas ou ajustes no abastecimento, maximizando a eficiência e reduzindo o desperdício dentro da cadeia de perecíveis. Essa identificação padronizada amplia a previsibilidade sobre o fluxo dos produtos na cadeia, conectando indústria, varejo e consumidor com mais transparência.

5.7 Sustentabilidade e inclusão avançam de forma mais aplicada

O conceito de ESG passou por um filtro de pragmatismo no varejo alimentar. Sustentabilidade e inclusão apareceram como ferramentas ligadas à eficiência, experiência do consumidor e reputação de marca.

A incorporação de soluções ambientais ultrapassou o discurso institucional vago para focar em impactos práticos e rastreáveis na operação. Exemplo disso é a automação da economia circular por meio de centrais de logística reversa e reciclagem instaladas nas lojas físicas, transformando o descarte de embalagens vazias em benefícios diretos ou pontos de fidelidade para o cliente. Conforme pontuou Tânia Sassioto, head de marketing da Eureciclo, esse processo consolidou as iniciativas socioambientais como um diferencial competitivo estratégico, reduzindo desperdícios e fortalecendo a reputação de marca junto ao consumidor. 

Além da logística reversa, parte das iniciativas apresentadas envolveram eficiência energética, reaproveitamento de água, equipamentos de menor consumo e projetos de lojas mais sustentáveis, mostrando uma preocupação em integrar a sustentabilidade ao negócio. O debate destacou que a construção de uma “loja verde” é uma decisão de longo prazo que começa ainda na fase de projeto estrutural, utilizando iluminação inteligente e matrizes de energia renovável para reduzir custos fixos de forma permanente. 

A grande inovação no pilar social foi a aplicação de Inteligência Artificial para acessibilidade na loja física. Softwares integrados ao portfólio das marcas fazem a leitura em voz alta de tabelas nutricionais, ingredientes e alérgenos diretamente no celular do consumidor, garantindo autonomia para pessoas com deficiência visual e reduzindo atritos para quem tem restrições alimentares. Essa tecnologia é escalada por meio de aplicativos com comandos de voz para localizar códigos de barras e chatbots com IA para esclarecer dúvidas sobre a composição dos produtos.

Conclusão

A APAS Show 2026 deixou claro que o varejo alimentar entrou em uma fase em que eficiência operacional, tecnologia e capacidade de adaptação deixaram de ser diferenciais para se tornarem condições básicas de competitividade. Pressões sobre margens, mudanças no comportamento de consumo e um cliente mais racional e exigente obrigam supermercados e indústrias a recalibrar decisões em tempo real.

Ao longo da feira, ficou evidente que as empresas mais preparadas são aquelas capazes de combinar produtividade, inteligência de dados e adaptação rápida às novas demandas de saudabilidade, conveniência e personalização, sem perder a capacidade de gerar conexão e relevância para o consumidor.

No fim, a APAS 2026 mostrou um varejo cada vez mais orientado por eficiência, leitura de comportamento e construção de experiências capazes de acompanhar um consumidor em constante transformação.

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