Hackeando | Agosto da inovação: Tendências que estão moldando o futuro

25 de agosto de 2025 36 minutos
inovação rio innovation week

TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
SUSTENTABILIDADE
BRANDING & CONSUMO
FINANÇAS
CIÊNCIA E DESINFORMAÇÃO

Agosto consolidou-se como um marco para o cenário de inovação no Brasil. Uma confluência de grandes eventos, como o Rio Innovation Week, o Hacktown e o Innovation Week SJC, transformou o país em um epicentro de debates sobre o futuro, reunindo um público superior a 245 mil pessoas e com uma projeção de mais de R$4 bilhões em negócios futuros. Mais do que uma vitrine de novas tecnologias, o período funcionou como um grande termômetro das tensões e oportunidades.

De um lado, a aceleração exponencial da Inteligência Artificial, prometendo revolucionar indústrias e redefinir a própria internet. Do outro, um chamado urgente à reflexão, com discussões aprofundadas sobre sustentabilidade, o valor insubstituível do fator humano e a busca por um “jeito brasileiro” de inovar. Este Hacks compila os principais insights que emergiram desse intenso “mês da inovação”, oferecendo um panorama completo dos temas que irão definir as estratégias de negócio e o futuro da sociedade nos próximos anos.

1. Tecnologia e inovação

Os eventos demonstraram diversas tecnologias que apontam para o futuro da indústria, segurança e prevenção de desastres. Experiências interativas permitiram ao público sentir e vivenciar as inovações, transformando os encontros em verdadeiros laboratórios de sensações que conectaram marcas, arte e entretenimento.

1.1 Inovações tecnológicas em destaque

  • Robô humanoide “14 Bis”: O primeiro robô humanóide produzido no Brasil. Desenvolvido na UFRJ, ele demonstrou sua capacidade de replicar, em tempo real, as sílabas da Língua Brasileira de Sinais (Libras).
  • Helicóptero controlado pela mente: Uma tecnologia que utiliza uma tiara com eletrodos para captar a concentração do usuário e, a partir dos impulsos cerebrais, controlar a subida de um helicóptero de pequeno porte, ilustrando a fusão entre neurociência e engenharia.
  • Robô quadrúpede: O robô em formato de cão mostrou sua capacidade de locomoção em terrenos irregulares e de subir escadas, com foco em aplicações industriais.
  • Jogo de damas por rastreamento ocular: Alunos do Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações) apresentaram um sistema com sensor de rastreamento ocular que permitia a usuários com deficiência motora controlar peças em um tabuleiro de damas físico, apenas com o movimento dos olhos.
  • Redes 6G: A Inatel detalhou avanços em testes de antenas de sexta geração (6G) no Brasil, que alcançaram latências abaixo de 1 milissegundo em protótipos e prometem revolucionar áreas como a telemedicina e a agricultura de precisão.
  • Drones para segurança pública: A Polícia Militar do Rio de Janeiro expôs seu arsenal tecnológico, incluindo drones para monitoramento urbano equipados com reconhecimento facial e transmissão de imagens em tempo real.
  • Projeto SABO: Tecnologia japonesa de barreiras de contenção que será implementada em Nova Friburgo e Teresópolis para prevenir desastres naturais como deslizamentos de terra.
  • Drones de alta performance: A XMobots exibiu seu mais novo drone, o Nauru 500C, capaz de mapear mais de 10.000 hectares em um único voo, com aplicações em agronegócio e monitoramento ambiental.
  • Tijolos de micélio: Uma startup de biotecnologia expôs materiais de construção fabricados a partir do cultivo de micélio (raízes de cogumelos), como uma alternativa biodegradável para a construção civil.
  • Impressora 3D de alimentos: Uma startup de foodtech demonstrou uma impressora 3D que fabricava alimentos, como chocolate, em formatos complexos por meio da deposição de camadas.
  • Tatuagem eletrônica (e-Tattoo): Pesquisadores do Inatel apresentaram um protótipo de circuito eletrônico flexível e adesivo que, ao ser aplicado na pele, monitora sinais vitais como frequência cardíaca e os transmite para um smartphone.

1.2 Experiências imersivas e ativações de marca

  • Navio-aeródromo “Atlântico”: O maior navio de guerra da América Latina foi aberto ao público e transformado em um palco de entretenimento, com simuladores de pilotagem, batalhas de robôs, cinema 4K e projeções mapeadas em sua lateral. O Navio-Veleiro “Cisne Branco” também esteve aberto à visitação, unindo tradição e inovação.
  • Casa conectada: A operadora Claro montou um ambiente funcional de uma casa onde dispositivos como cortinas, iluminação e TV eram integrados e controlados por comandos de voz.
  • Instalações de arte interativa: Diversos coletivos de arte e tecnologia montaram experiências imersivas, como a “floresta de dados”, com luz e som reativos ao movimento, e a “sinfonia das plantas”, que convertia os sinais bioelétricos de plantas em música em tempo real.
  • Cozinha automatizada: O Inatel expôs equipamentos de cozinha profissionais com sensores para monitorar e automatizar processos de cozimento, controlando variáveis como temperatura e tempo.
  • A experiência de voar em um eVTOL: A Embraer/Eve permitiu ao público sentir como será voar em um “carro voador”. A experiência incluía um simulador de voo em realidade virtual (VR), que replicava um trajeto real mostrando a vista panorâmica e o baixo ruído do motor elétrico, e a visita a um mock-up físico da cabine da aeronave, que se assemelhava mais a um carro de luxo.
  • Banco do Brasil exibiu a “Árvore BB”, uma instalação com inteligência artificial generativa que interagia com o público.
  • Petrobras e Transpetro destacaram-se com simuladores de operações offshore em realidade virtual e quizzes sobre navegação sustentável.
  • A UFRJ promoveu experiências de alta tecnologia, incluindo a “Semente Imersivo” (uma viagem em VR pela história da criatividade), capacetes que medem emoções em tempo real, sistemas de diagnóstico por IA e soluções inovadoras para tratamento de águas.
  • A instalação artística LedPulse – Dragon O² criou um espetáculo visual único, transformando luz em partículas tridimensionais que “flutuavam” no espaço.
  • A Sinergia Educação trouxe um escafandro com óculos de realidade virtual para aulas imersivas de biologia marinha, simulando a sensação da pressão subaquática e a observação de espécies em 3D.
  • Bayer Day – A Fazenda Digital: A Bayer promoveu um circuito interativo onde o público usou tablets com realidade aumentada para diagnosticar problemas em uma maquete de plantação. 

1.3 O “jeito brasileiro” de inovar

Em um diálogo sobre o fortalecimento do ecossistema nacional, Ferdinando Kun, líder de comunidade do UberHub, e Rogers Pereira, diretor-executivo da Join.Ville, defenderam que a inovação no Brasil deve partir da própria comunidade. Rogers criticou a prática de importar modelos prontos de outros países, argumentando que a escassez de recursos no Brasil estimula a criatividade local. Lívia Oliveira, product owner na Arkmeds, complementou, afirmando que metodologias do Vale do Silício não podem ser aplicadas à realidade brasileira sem uma profunda adaptação ao contexto local.

2. Inteligência artificial

inovaçãoA Inteligência Artificial (IA) dominou as discussões dos eventos de inovação de agosto, permeando conversas que foram da infraestrutura tecnológica às implicações filosóficas e sociais.

 

2.1 A IA na prática: um panorama das aplicações setoriais 

  • Música: A conversa centrou-se no conflito entre a IA como ferramenta criativa e como ameaça à autenticidade artística. Artistas defenderam a tecnologia como um instrumento útil para iniciantes, enquanto outros argumentaram que o sentimento e a imprevisibilidade do processo humano são insubstituíveis.
  • Mercado financeiro:  Além de discutir o potencial da IA em investimentos, os painéis foram além, delineando a visão de futuro para o setor. A Anbima, por exemplo, discutiu sobre como a tokenização e o blockchain podem criar uma nova infraestrutura financeira mais eficiente, global e acessível, com potencial para simplificar processos, reduzir custos e democratizar o acesso a diferentes tipos de ativos.
  • Segurança pública: A PMERJ exibiu tecnologias com capacidade de reconhecimento facial e aplicativos de atendimento e proteção ao cidadão, como o 190 RJ e o Rede Mulher.
  • Gestão pública e judiciário: O Serpro destacou como o uso de IA pode aprimorar serviços governamentais e aumentar a eficiência da administração pública, promovendo a inclusão digital. No âmbito jurídico, o presidente do TRF2 palestrou sobre projetos de IA que já estão em desenvolvimento para otimizar os processos judiciais.
  • Indústria e logística: A Transpetro mostrou um caso de uso de IA para otimizar a eficiência e a sustentabilidade de suas operações, monitorando e prevendo o consumo de energia elétrica em dutos.
  • Agronegócio: Detalhou-se como a IA está sendo usada no campo para melhorar a produtividade, a experiência da equipe de vendas e o processo de recomendação de produtos aos clientes.
  • Saúde e bem-estar: Além do HealthScan da UFRJ para diagnóstico por imagem, a aplicação da IA na saúde foi aprofundada por Ana Claudia Cabral, CTO da Evah Saúde. Ela apresentou a convergência entre algoritmos de IA (para análise de exames e atendimento digital) e saberes ancestrais para o cuidado com a saúde feminina. O Dr. Giovanni Guido, do Hospital das Clínicas da FMUSP, explicou como a tecnologia otimiza o trabalho médico ao analisar exames em massa.
  • Acessibilidade e inclusão: Bernardo Berlac, Head de acessibilidade do Google no Brasil, falou sobre o “Projeto Astra”, que usa a câmera do celular e IA para ajudar pessoas com deficiência visual a se localizarem em ambientes e a identificar objetos ao redor, além de oferecer tradução simultânea para Libras.
  • Esportes e apostas: Um painel sobre o uso de IA e big data no combate à manipulação de resultados em apostas esportivas mostrou como a tecnologia pode ser usada para garantir a integridade do setor.

2.2 O futuro do trabalho e da liderança na era da IA 

O impacto da Inteligência Artificial no mercado de trabalho foi explorado com futuristas analisando as novas dinâmicas de equipe, o papel da liderança e as diferentes reações das gerações de profissionais.

2.2.1 Agentes de IA como “colegas de trabalho” 

Neil Redding fez uma previsão ousada: até o fim de 2025, os colegas de trabalho deixarão de ser exclusivamente humanos, com agentes autônomos de IA se tornando parte das equipes. Segundo ele, a liderança tradicional, baseada no controle, dará lugar a um modelo de “orquestração”, no qual os líderes deverão gerenciar fluxos de trabalho entre humanos e máquinas, liberando as pessoas para focarem em criatividade, empatia e inovação. Ele também detalhou cinco passos para as empresas sobreviverem à nova era da IA: investir em projetos de alto impacto que gerem receita; atualizar a infraestrutura de dados; desenvolver talentos e uma cultura interna de IA; integrar a tecnologia em todas as unidades de negócio; e impulsionar a adoção com senso de urgência e governança de riscos.

Complementando essa visão, o futurista Ian Beacraft alertou sobre o “hype exagerado” em torno dos agentes de IA, afirmando que muitas iniciativas de implementação falharão — cerca de 85% — não pela tecnologia, mas pela abordagem. Para ele, o erro das empresas é tratar a IA como um simples projeto de TI, quando na verdade se trata de uma profunda mudança cultural. Beacraft aconselhou os trabalhadores a se adaptarem “começando pequeno, construindo hábitos” e tratando a adoção da IA como um “esporte coletivo”, colaborando com colegas.

2.2.2 O paradoxo das gerações 

Uma perspectiva diferente sobre a adoção da IA foi trazida por Marcelo Pivovar, CTO da Oracle, que apresentou dados de uma pesquisa global (“World of Work”). Os resultados mostraram um paradoxo: a Geração Z, apesar de ser a mais digital, é a que menos adota IA por iniciativa própria no trabalho (59%). O motivo apontado é o receio de que a tecnologia ameace sua criatividade e intuição humana. Em contrapartida, os Millennials são os maiores adeptos da tecnologia (73%). O estudo também derrubou o mito de que a Geração X é resistente à tecnologia, mostrando uma taxa de adoção de 65%.

2.3 O fator humano: o que a IA não pode substituir

Um assunto recorrente foi a reflexão sobre o que define a experiência humana e o que a tecnologia não pode replicar. Diversos palestrantes enfatizaram a valorização de habilidades como emoção, criatividade e pensamento crítico.

2.3.1 A inteligência emocional como diferencial humano

Daniel Goleman, psicólogo que popularizou o conceito de “inteligência emocional“, foi categórico ao afirmar que esta habilidade se torna ainda mais importante na era da IA. Segundo ele, a IA, por ser um programa de computador, não possui emoções, empatia ou bússola moral, e jamais conseguirá substituir a interação genuína entre pessoas. Ele esclareceu que a tecnologia não consegue interpretar nuances de contexto social nem compreender o que “não é dito” em uma conversa, algo fundamental nas interações humanas. Ele concluiu que as habilidades socioemocionais serão cada vez mais valorizadas pelos empregadores, pois são elas que tornam os profissionais mais eficazes em todas as suas funções.

2.3.2 Desmistificando a máquina para valorizar o humano 

John Maeda, vice-presidente de design e inteligência artificial da Microsoft, desvendou o funcionamento da IA para, a partir disso, ressaltar os limites da tecnologia e o valor do que é humano. Em uma abordagem didática, ele montou uma “cozinha” no palco e usou a metáfora do doce “morango do amor” para ilustrar como a IA processa informações. Em uma demonstração, ele pediu a dois modelos de IA que contassem quantos “r´s” existem na palavra “strawberry”, obtendo respostas diferentes. Isso serviu para ilustrar que a IA não lê como nós, mas transforma palavras em vetores numéricos (chamados embeddings). Ele também explicou o conceito de Retrieval Augmented Generation (RAG), um processo pelo qual a IA fragmenta documentos para escolher os trechos mais relevantes e gerar respostas mais precisas.

Ao final, em um diálogo com Marcelo Gleiser, Maeda concluiu que, embora a IA possa inovar com base em padrões, a interpretação, a emoção e a ética permanecem exclusividades humanas. O impacto da IA dependerá do uso responsável e da “curiosidade crítica” por parte das pessoas.

2.3.3 A filosofia e o pensamento crítico 

No encontro entre o físico Marcelo Gleiser e o historiador Leandro Karnal defendeu-se a importância do questionamento e da dúvida como motores do conhecimento, algo que a IA, focada em fornecer respostas, não possui. Karnal alertou para a “redução epistemológica” na era da internet, a tendência de equiparar a opinião de qualquer pessoa com o conhecimento de um especialista, um problema que a IA pode agravar. A palestra reforçou a necessidade de pensamento crítico e ética diante das rápidas transformações tecnológicas.

2.3.4 O desafio da autenticidade 

O diálogo entre John Maeda e Marcelo Gleiser concentrou-se no desafio de diferenciar conteúdos criados por humanos dos gerados por máquinas. A discussão levantou a questão de “até que ponto importa saber se algo foi feito por uma pessoa ou por uma IA”, concluindo que a autenticidade depende do valor atribuído por cada pessoa e situação. A mensagem final foi um convite para que a sociedade olhe para a IA com “curiosidade crítica, responsabilidade e consciência”, entendendo que o avanço tecnológico precisa ser acompanhado por uma reflexão sobre o que significa ser humano na era digital.

2.4 Desafios éticos, regulação e o papel do Brasil 

Com o avanço inevitável da IA, os debates também se aprofundaram nas regras, responsabilidades e no posicionamento estratégico que o Brasil deve adotar.

2.4.1  Regulação e direitos autorais 

Uma das discussões mais importantes girou em torno do Marco Regulatório da IA no Brasil, com foco na questão dos direitos autorais. Nicolas Andrade, diretor de políticas da OpenAI na América Latina, argumentou que a inclusão de regras rígidas de copyright na legislação poderia criar um “pedágio caríssimo” para a inovação no país. Ele contextualizou que, nos EUA, empresas treinam modelos sob a doutrina de “uso justo” (fair use), e que Europa, Cingapura e Japão possuem legislações que permitem o uso de dados para treinamento. A preocupação é que uma lei restritiva no Brasil crie uma desvantagem competitiva

2.4.2 Os riscos ignorados e a necessidade de colaboração 

Neil Redding introduziu o conceito de “cisnes vermelhos” para se referir aos riscos da IA: eventos claramente visíveis e inevitáveis, mas que são amplamente ignorados pela sociedade e pelos líderes. Ele citou as crescentes necessidades energéticas e hídricas dos data centers e a falta de conversas sérias sobre segurança e alinhamento da IA com os valores humanos como exemplos desses riscos. Redding criticou a tendência à desregulação irrestrita, prevendo que “coisas muito negativas” acontecerão se não forem criadas barreiras de proteção, mas manteve uma perspectiva positiva na necessidade de colaboração global para a sobrevivência e prosperidade.

2.4.3 Confiança, ética e o papel do Brasil

A futurista Amy Webb analisou a complexa relação entre humanos e IA, afirmando que a confiança nos sistemas tende a aumentar com sua utilidade. No entanto, ela ressaltou que essa crescente dependência exige uma base ética sólida e, principalmente, letramento digital por parte da população. Webb também fez uma análise contundente sobre o posicionamento do Brasil, afirmando que o país carece de protagonismo na corrida global pela IA. Para ela, o Brasil deveria criar um “Ministério do futuro”, um órgão independente de governos e partidos para acelerar a transformação tecnológica nacional e evitar a dependência de tecnologias estrangeiras.

2.5 Visões de futuro e a próxima fronteira tecnológica

Diversas palestras nos eventos de inovação de agosto exploraram as transformações de longo prazo e a próxima grande onda de inovação tecnológica. Os futuristas presentes desenharam um cenário de mudanças exponenciais para a sociedade, os negócios e a própria definição de inteligência.

2.5.1 A nova realidade digital  

Amy Webb previu uma mudança radical na forma como interagimos com o mundo digital, com o surgimento de uma internet “sem buscas” e “sem cliques”. Segundo ela, em vez de pesquisarmos ativamente por informações, teremos os multi-agent systems (MAS), que são sistemas nos quais diferentes agentes de IA, cada um especializado em uma função, atuam de forma coordenada e sem interferência humana para resolver problemas complexos. Nesse novo cenário, ela afirma que “o modelo de IA é a marca”, pois a principal interação do consumidor com uma empresa será através de um agente de IA treinado para oferecer soluções personalizadas.

2.5.2 A busca pela Inteligência Artificial Geral (AGI) 

Neil Redding previu que estamos “muito perto” da Inteligência Artificial Geral (AGI), um tipo de IA que supera os humanos em praticamente qualquer tarefa cognitiva, afirmando que sua chegada poderia ocorrer este ano ou no próximo. Amy Webb, por sua vez, ofereceu uma visão mais cética sobre como chegaremos lá, argumentando que a AGI dificilmente surgirá apenas dos modelos de linguagem (LLMs) que temos hoje, pois precisaria de muitos outros tipos de dados além da linguagem. Para Redding, o estágio final dessa evolução é a simbiose, uma relação produtiva e colaborativa entre humanos e a IA.

2.5.3 Inteligência Amplificada

O futurista Peter Diamandis trouxe uma perspectiva otimista, defendendo que o termo correto não é Inteligência Artificial, mas sim “Inteligência Amplificada”. Para ele, a tecnologia é uma extensão da capacidade humana, e não sua substituta, projetando que “a próxima década trará mudanças mais profundas do que o último século”. Ele usou como exemplo os avanços na longevidade, argumentando que, como “todos dividimos a mesma biologia”, uma descoberta que beneficie uma pessoa pode impactar toda a humanidade, e encerrou incentivando o público a pensar grande para resolver os grandes problemas do mundo.

3. Sustentabilidade, meio ambiente e ESG

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A urgência da pauta ambiental esteve presente nas conversas que conectaram ativismo global, políticas públicas, inovação tecnológica e saberes ancestrais. Os eventos serviram como um palco para reflexões profundas sobre a crise climática e os caminhos para um futuro mais sustentável e regenerativo.

3.1 Visões globais e o chamado ao ativismo

Grandes nomes examinaram a crise climática a partir de uma perspectiva global, focando na necessidade de uma mudança de consciência e no engajamento individual e coletivo.

3.1.1 Ativismo no esporte 

O tetracampeão mundial de Fórmula 1, Sebastian Vettel relatou como sua carreira evoluiu do automobilismo para o engajamento em causas socioambientais. Desde sua aposentadoria em 2022, Vettel tem se dedicado a essa causa, realizando visitas à Amazônia e a aldeias indígenas brasileiras para aprender sobre preservação. Ele pontuou que uma verdadeira vitória é aquela que beneficia o planeta e as pessoas , e que os atletas têm a responsabilidade de atuar como agentes de mudança. Embora otimista com os avanços, como a adoção de combustíveis sustentáveis na F1 até 2026, ele alertou que a corrida a ser vencida está fora das pistas: segundo ele, é preciso educar as novas gerações e apostar nas crianças para que elas também ensinem os mais velhos a ver o futuro com outra lente.

3.1.2 Sabedoria ancestral 

O líder indígena e escritor Ailton Krenak se uniu a Marcelo Gleiser para compartilhar a perspectiva do pensamento ancestral. Krenak contrapôs o ritmo acelerado da tecnologia ao tempo circular e contemplativo dos povos originários, defendendo a necessidade de resgatar uma visão de pertencimento ao planeta para enfrentar as mudanças climáticas. Sua mensagem central foi um chamado ao cuidado, afirmando que a Terra é como um jardim e que a humanidade precisa reaprender a caminhar nele com respeito. O diálogo reforçou que as soluções para as crises atuais exigem a união da razão científica com a sabedoria dos povos tradicionais.

3.2 A economia azul e a preservação dos oceanos

Um dos focos centrais sobre sustentabilidade foi a importância estratégica dos oceanos, analisada tanto do ponto de vista econômico quanto de preservação e conscientização.

3.2.1 “Rio, uma cidade pelo oceano” 

Com moderação da jornalista Aline Midlej, participaram Gunter Pauli, autor do conceito de Economia Azul, e Bernardo Rossi, Secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro. Gunter Pauli explicou que a Economia Azul propõe o uso sustentável dos recursos oceânicos, destacando o potencial do litoral carioca para se tornar um polo de inovação verde, gerando empregos sem degradar os ecossistemas. Ele citou também o potencial de algas marinhas e outras biomassas como fontes inovadoras para energia, farmacêutica e alimentação. Já Bernardo Rossi detalhou as ações do governo, como o uso de sensores e satélites que permitiram monitorar e reduzir o desmatamento no estado em 68%, além de esforços para proteger manguezais e ampliar o monitoramento da fauna e flora marinha.

3.2.2 A conscientização por meio da tecnologia e do ativismo 

Para gerar uma conexão mais profunda com a causa, o Instituto Mar Urbano utilizou óculos de realidade virtual em seu espaço, permitindo que os visitantes “mergulhassem” em habitats marinhos do Rio, como a Baía de Guanabara e as Ilhas Cagarras. Segundo Ricardo Gomes, presidente do instituto, a iniciativa segue o lema de que “o homem só preserva o que conhece” e busca criar uma maior cultura oceânica na sociedade. Complementando a visão de urgência,  Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil, fez um alerta contundente, afirmando que a vida humana está profundamente interligada com a vida marinha e que, se o oceano morre, nós morremos. Ela defendeu uma visão mais biocêntrica e lembrou que cerca de 85% do oxigênio do planeta é gerado nos oceanos, evidenciando seu papel fundamental no combate à crise climática.

3.3 Cidades resilientes: tecnologia contra desastres naturais

A inovação como ferramenta para aumentar a resiliência das cidades a eventos climáticos extremos foi um tópico prático e urgente, com a exposição de soluções de engenharia e estratégias de resposta a emergências.

3.3.1 Projeto SABO: a engenharia japonesa contra deslizamentos

O Projeto SABO, uma tecnologia japonesa de prevenção a desastres naturais, foi um dos principais focos. O secretário estadual de Habitação de Interesse Social do Rio de Janeiro, Bruno Dauaire, detalhou o sistema, que consiste em barreiras construídas em pontos estratégicos para conter o avanço de detritos desprendidos de encostas, impedindo que cheguem a áreas povoadas. Fruto de uma cooperação técnica entre o Brasil e a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), a solução será implantada de forma pioneira pelo Governo do Estado em Nova Friburgo e Teresópolis, cidades escolhidas pelo histórico de tragédias provocadas por chuvas intensas. A iniciativa ilustra como a inovação pode salvar vidas em comunidades vulneráveis.

3.3.2 A Marinha do Brasil na resposta a desastres

A Marinha do Brasil apresentou como suas capacidades logísticas são empregadas em apoio à população em eventos climáticos extremos. O Almirante de Esquadra, Carlos Chagas Vianna Braga, destacou a atuação da Marinha nas recentes enchentes no Rio Grande do Sul, para onde foi enviado o maior navio da Esquadra, o NAM Atlântico. O navio transportou pessoal e materiais para ações de resgate e ajuda humanitária. 

3.4 A corrida pela descarbonização: energia e mobilidade do futuro 

A transição energética foi ponto de reflexão sobre os desafios e as oportunidades para o Brasil em áreas como mobilidade urbana e a diversificação da matriz energética.

3.4.1 Mobilidade e combustíveis alternativos

Danielle Silva Bernardes, gerente executiva governamental da CNT, discutiu a adoção de veículos movidos a eletricidade, gás natural e biometano. Paulo Kazuto, especialista em mobilidade sustentável do grupo Iveco, e Carlos Eduardo Souza, CEO da TEVX Higer, reforçaram que a transição para combustíveis limpos é uma necessidade estratégica para o País. Foram analisados os gargalos para a expansão da frota de baixa emissão, como a falta de infraestrutura de recarga, a disponibilidade limitada de biometano e os custos iniciais dos veículos. O consenso foi de que a descarbonização exige uma visão sistêmica, com planejamento urbano integrado e uma forte parceria entre os setores público e privado.

3.4.2 Energia nuclear como pilar na transição energética 

A energia nuclear foi apontada como uma das fontes mais promissoras para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Ressaltou-se que sua alta densidade energética e operação estável, que não depende de condições climáticas, fazem dela um pilar estratégico na transição para uma matriz energética mais limpa. A ampliação do uso da energia nuclear no Brasil poderia gerar empregos qualificados e reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

3.5 ESG e governança

Discussões focadas na temática ESG, como a promovida pelo Instituto XP sobre a crise climática, mostraram que os riscos climáticos deixaram de ser preocupações secundárias e se tornaram centrais nas decisões de investimento. Argumentou-se que a matriz elétrica limpa do Brasil e suas vantagens na bioeconomia e agricultura regenerativa posicionam o país como um potencial polo de soluções climáticas. No entanto, os palestrantes também reconheceram os desafios que o Brasil enfrenta, particularmente a necessidade de políticas confiáveis para conter o desmatamento. A realização da COP30 em Belém surgiu no painel como uma oportunidade estratégica para o Brasil projetar liderança climática e atrair fluxos de capital para a descarbonização.

Também foi mencionada a importância da articulação entre o setor privado, o poder público e as organizações da sociedade civil. A palestrante Marinez Fernandez, presidente do Instituto Dagaz, reforçou que as parcerias público-privadas podem ser transformadoras e alcançar territórios onde o Estado muitas vezes não chega

3.6 Educação para um futuro verde

O painel “Educação para o futuro verde” discutiu a relevância da formação de profissionais preparados para um mercado de trabalho cada vez mais focado em práticas sustentáveis. A conversa, que contou com a participação de Antonio Alvarenga, presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), e da CEO da Tamboro, levantou questões sobre como empresas e o setor educacional podem colaborar para criar uma cadeia de valor que comece na sala de aula. Alvarenga pontuou que, além da qualificação técnica, é fundamental que o novo profissional tenha consciência crítica e capacidade de avaliação. Ele também observou que a educação deve ser contínua ao longo da vida para acompanhar as transformações do mercado. 

4. Branding, consumo e vendas

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Os debates sobre o futuro dos negócios focaram intensamente na evolução da relação entre marcas e consumidores. Em um mundo de produtos e informações abundantes, a diferenciação vem da construção de uma marca com propósito, que gera conexão emocional e senso de comunidade.

4.1 Branding na era digital: atitude, conexão e cultura 

O branding moderno foi além da identidade visual, focando na marca como uma construção de significado e cultura.

4.1.1 Marca como atitude e estratégia 

Para Lucas Daibert, sócio e vice-presidente de estratégia da agência Binder, uma marca é um “atalho mental”, cujo valor principal é gerar significado e cultura, indo muito além da simples estética. Ele argumentou que, em um cenário de “pasteurização do mundo e abundância de conhecimento”, a diferenciação não virá mais do conhecimento técnico, mas sim das soft skills e da capacidade de criar conexões emocionais. Daibert destacou a importância de incorporar elementos culturais na estratégia, observando que “o Brasil é uma ilha isolada em sua própria cultura”, uma característica que pode ser explorada para um posicionamento de marca autêntico. A diretora de arte da agência, Tatiana Rodrigues, complementou, afirmando que “parte da construção é contar uma história de maneira sincera com o público”. Daibert concluiu que para construir uma marca longeva é indispensável acompanhar as mudanças de comportamento do consumidor, pois “quem entende de gente sempre vence”.

4.1.2 O luxo em transformação 

O conceito de luxo está sendo redefinido. Para os consultores Deny Guedes e Edu Santos, o luxo contemporâneo é menos sobre preço e exclusividade e mais sobre “sentimento” e “liberdade de escolha”. As marcas de alto padrão estão cada vez mais investindo em proporcionar experiências, como cafés e espaços de convivência em suas lojas, para criar um senso de pertencimento e construir uma comunidade em torno da marca

4.1.3 A busca por autenticidade e comunidade 

O economista e influenciador Gil do Vigor e a head de talentos Mari Lima discutiram o peso da autenticidade nas relações online. Ressaltou-se no painel que, embora as redes sociais aproximem pessoas, elas também carregam o risco de isolamento. Há uma necessidade de as marcas e influenciadores construírem vínculos genuínos com seus públicos, baseados em comunicação verdadeira, inclusão e representatividade, como forma de criar um real sentimento de pertencimento.

4.2 A jornada do consumidor: a fusão do online com o offline 

O painel “Marcas se conectam no digital, mas se solidificam na experiência” mergulhou na jornada do consumidor na era da multicanalidade. A consultora Cláudia Fernandes, da Radar Consult, introduziu o conceito de OMO (Online Merge Offline), explicando que, embora a força do ambiente digital seja inegável, a consolidação da relação com a marca acontece no contato humano e na experiência física. Usando a frase “ninguém frita um ovo no digital”, ela sustentou a ideia de que a vivência física é insubstituível. Duda Pereira, head de RP e eventos da Globo, complementou a visão, afirmando que “somos todos contadores de histórias” e que o papel do offline é reverberar a conexão que muitas vezes começa no ambiente online, mostrando como eventos presenciais podem gerar um impacto digital massivo. 

A palestra evoluiu para o papel da tecnologia no futuro dessa jornada. Fernandes provocou ao questionar se a tecnologia seria apenas uma facilitadora ou a protagonista da experiência. Em resposta, Clarissa Biolchini defendeu que o ideal é que a tecnologia potencialize as necessidades humanas, sem criar dependência. Duda Pereira defendeu que, para criar boas experiências, o profissional precisa ter um vasto repertório pessoal e cultural, argumentando que “marketing sem repertório não existe”, ou seja, é preciso viver e absorver diversas vivências para poder criar algo relevante para os outros. Para Biolchini, a chave para gerar insights é manter a “abertura ao novo” e a observação livre de preconceitos.

4.3 Novas fronteiras do varejo 

As novas formas de interação e venda no varejo digital estiveram em pauta, com diálogos  dedicados a formatos emergentes como o live commerce e o uso estratégico de plataformas de conversa para impulsionar negócios.

4.3.1 A importância do live commerce 

Foi explorado o potencial do live commerce, que combina transmissão ao vivo com e-commerce em uma única experiência. Monique Lima, CEO da Mimo Live Sales, chamou a atenção para a força dessa estratégia no Brasil, que já é o segundo país que mais interage com lives no mundo. Segundo ela, o formato pode aumentar as vendas em até 30 vezes em comparação com métodos tradicionais, com taxas de conversão que chegam a 30%. A chave para o sucesso é um conteúdo espontâneo e humanizado, diferente da venda televisiva tradicional, impulsionado por gatilhos como descontos-relâmpago e frete grátis. Usando como exemplo o case de O Boticário, que realizou a primeira transmissão do tipo no palco do evento, os palestrantes contaram que a marca, após testar grandes produções, descobriu que formatos mais simples e com colaboradores próprios geram maior engajamento, reforçando a importância da autenticidade e da consistência na estratégia.

4.3.2 Conversational commerce

O potencial do comércio conversacional foi o foco da palestra de Patrick Scripilliti, Gerente Executivo Cross da Totvs. Ele argumentou que a estratégia aproveita uma característica cultural, de “o brasileiro gostar de conversar”, para transformar diálogos em vendas e fidelização. O WhatsApp foi apontado como a principal ferramenta para isso, com seus 150 milhões de usuários no Brasil e uma taxa de leitura de mensagens de 99%. O canal é uma ferramenta estratégica para aproximar marcas e consumidores, resolver problemas e gerar vendas, podendo reproduzir a venda consultiva de uma loja física ao usar dados de conversas para criar ofertas personalizadas em larga escala.

4.4 Estratégias de venda e o poder da demonstração

Em uma discussão mediada pela investidora Camila Farani, João Appolinário, fundador e CEO da Polishop, compartilhou as estratégias que consolidaram sua marca, com foco na geração de valor para o cliente. O empresário defendeu que a venda eficaz não se concentra no produto em si, mas nos ganhos que ele proporciona, resumindo sua filosofia na frase: “o produto tem preço, o benefício tem valor”. Para ele, a ferramenta de venda mais poderosa é a demonstração prática, pois ela evidencia o valor do produto e como ele resolve uma necessidade real do consumidor. Appolinário afirmou preferir “um bom demonstrador a um bom vendedor”, explicando que, enquanto o vendedor descreve, o demonstrador prova o valor na prática. Ele também pontuou que as escolhas de consumo hoje são cada vez mais guiadas por três elementos: a busca por mais saúde, mais beleza e a necessidade de economizar tempo.

Appolinário também diferenciou os conceitos de multicanal e omnichannel. Segundo ele, ter múltiplos canais de venda não é o bastante; a verdadeira estratégia omnichannel exige que todos os pontos de contato (loja física, e-commerce, televendas) tenham a mesma política comercial e transmitam a mesma proposta de valor, garantindo uma experiência consistente para o cliente.

4.5 Soft power: a construção da marca Brasil

A discussão sobre branding nos eventos se estendeu à escala nacional na palestra “Turismo e inovação como soft power”, que abordou a construção da “marca Brasil” no cenário global. Marcelo Freixo, presidente da Embratur, detalhou como a agência está usando a inovação como uma ferramenta de branding para consolidar uma imagem mais positiva e atraente do País. A principal tática apresentada foi o uso do “soft power”, conceito que, no contexto de marketing, se refere à capacidade de um país influenciar e atrair outros (turistas, investidores) por meio de seus ativos culturais e valores. O objetivo é posicionar a “marca Brasil” como um sinônimo de criatividade, diversidade e sustentabilidade. Para executar essa estratégia, o EmbraturLAB, laboratório de inovação da agência, desenvolve projetos que funcionam como “produtos” dessa marca, como a criação de rotas culturais e parcerias com Big Techs como Google e TikTok para gerenciar a presença digital do país.

4.6 O “encantamento” e as novas narrativas de marca

Felipe Almeida, Business Manager de Live Entertainment da The Walt Disney Company, compartilhou insights sobre como transformar eventos em experiências memoráveis. Ele revelou que o diferencial da Disney está no “cuidado com os detalhes” e em garantir que toda a equipe, do produtor ao segurança, compreenda seu papel na criação da magia. O objetivo, segundo ele, é criar experiências multissensoriais com propósito, pois o encantamento é a entrega principal.

Tatiane Rodrigues, da Performa, colocou o storytelling como uma ferramenta essencial para engajar pessoas em um cenário de “guerra de narrativas”. Complementando, Martin Nahuel Rabaglia, CEO da Genosha, apresentou sua visão sobre “narrativas digitais”, mostrando ferramentas de IA para roteirização e legendagem que ajudam a reinventar marcas através de “narrativas vivas” em tempo real.

5. Finanças

inovação

Uma palestra liderada pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), que reuniu executivos do BTG Pactual, Bradesco e Santander, centrou sua análise nas tecnologias de blockchain e tokenização como as bases para uma nova infraestrutura financeira. O objetivo é simplificar processos, reduzir custos e democratizar o acesso a investimentos. A visão de futuro foi resumida por Courtnay Guimarães, head de digital assets do Bradesco, que projetou um mercado financeiro global, onde as fronteiras para investir desaparecerão. Segundo ele, com a tecnologia, as transações serão internacionais, e o mercado “só será brasileiro para os impostos”, significando que a única amarra local de uma operação será a tributária. Apesar do otimismo, foram indicados desafios como a necessidade de criar padrões tecnológicos e garantir que as diferentes plataformas consigam “conversar” entre si.

Já em outra conversa sobre finanças, Renato Carvalho, da Money Times, juntamente com os executivos Bernardo Meirelles, Igor Araújo e Jeff Rodrigues, apresentou o PIX como um marco evolutivo para transações e inclusão bancária no Brasil. O Open Finance foi amplamente debatido como uma solução com grande potencial, baseada no consentimento do usuário para compartilhar dados e criar produtos melhores, embora o desafio seja convencer as pessoas a aderirem sem um benefício claro. As previsões para 2030 incluem a prevalência de “pagamentos invisíveis” e o crescimento do “embedded finance” (finanças incorporadas por empresas não financeiras).

6. Ciência no combate à desinformação

inovaçãoOs eventos de inovação de agosto também abriram espaço para painéis que conectaram os avanços científicos às grandes questões da sociedade contemporânea.

Em uma palestra que reuniu as divulgadoras científicas Ana Bonassa e Laura Marise (do canal “Nunca Vi 1 Cientista”) e a bióloga Mari Krüger, o foco foi em como a ciência pode vencer a corrida contra as fake news. Elas compartilharam estratégias para ocupar as redes sociais com informação confiável, quebrando estereótipos e mostrando que a ciência pode ser leve e divertida. A proposta, segundo o trio, é simples: se a desinformação está online, o conhecimento científico também precisa estar. Mari Krüger defendeu o letramento digital como ferramenta essencial, afirmando que “precisamos de cada vez menos influenciadores que se acham experts e mais experts dispostos a influenciar”. Laura Marise alertou para o novo hábito do público, de que “as pessoas estão usando cada vez mais o TikTok como fonte de pesquisa, e muitas vezes encontram informações falsas”.

Complementando a discussão, o historiador Leandro Karnal criticou o que chamou de “redução epistemológica” da era da internet. Ele esclareceu que este é o fenômeno onde a reflexão sistemática e baseada em evidências é equiparada à “doxa”, ou seja, à mera opinião. Para ele, a opinião de um especialista com anos de estudo não pode ter o mesmo peso que a de qualquer pessoa online, um problema que, segundo ele, leva à ascensão de “saberes equivocados, superficiais, não sistemáticos e que dispensam a contraprova, que é a base de todo experimento científico”.

Conclusão

O intenso “mês da inovação” de agosto de 2025 deixou um recado claro: o futuro não será definido apenas pela tecnologia que criamos, mas pela sabedoria com que a utilizamos. Os debates desenharam um cenário de dualidades: de um lado, a aceleração exponencial da Inteligência Artificial, a automação inteligente e a onipresença dos dados; do outro, um chamado geral pela valorização do que é insubstituível: a inteligência emocional, a criatividade que nasce da escassez, a ética e a necessidade de um desenvolvimento sustentável. A grande mensagem que ecoou nos corredores dos eventos não foi a de uma disputa entre humanos e máquinas, mas a da urgência de uma simbiose. Os próximos anos não serão sobre escolher entre a tecnologia e a humanidade, mas sobre orquestrar a relação entre as duas, com o fator humano não como um passageiro, mas como o piloto consciente dessa transformação.

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